Guilherme Pontes Coelho
22 de maio de 2012
20 de janeiro de 2012
p. 85
A monotonia comprime o tempo, a novidade o expande. Você pode se exercitar, ter uma alimentação saudável e viver uma vida longa, mas experienciar uma vida curta. Se passar a vida sentado num cubículo lidando com a papelada, um dia vai passar sem memória e se fundir com o seguinte... e desaparecer. Por isso, é importante mudar a rotina, passar férias em lugares exóticos e ter o máximo possível de experiências novas que possam servir de âncoras para nossa memória. Criar novas memórias estende nosso tempo psicológico e prolonga a percepção de nossa vida.
19 de janeiro de 2012
Precisamos falar sobre o Kevin
Eva está na Tomatina, a tradicional festa espanhola, celebrada na última quarta de agosto, desde os anos 1940, na cidade de Buñol. Mas ela não é espanhola, é norte-americana. É uma viajante, mulher de raízes áreas. É um espírito livre, como dizem. Enquanto está mergulhada nas águas vermelhas da Tomatina, sua identidade pouco importa, porque, na verdade, é nesta entrega à anonímia que ela se sente bem. Esta entrega, aparentemente, a transporta a um mundo onde não existem causas e consequências, prenomes e sobrenomes, chegadas e partidas, passado e presente. Cultura e civilização são suspensas. Eva fica em silêncio, fascinada com o espetáculo que vivencia, uma celebração coletiva da alegria.
Esta é a sequência inicial de Precisamos falar sobre o Kevin, filme de Lynne Ramsay (Estados Unidos, 2011), baseado no livro homônimo de Lionel Shriver.
A anonímia, o desgarre, a leveza, a liberdade - pode-se dizer que são estes os ventos que determinam o curso da vida de Eva (Tilda Swinton, sempre ótima), mesmo em sua forma mais pé no chão, a financeira: ela é dona de uma bem sucedida agência de viagens. Mas todo o mundo de Eva perde imediatez da liberdade, a elegância da leveza, a velocidade do desgarre e, principalmente, o calor da anonímia. O agente desta transformação tem nome: Kevin (Ezra Miller, de bom desempenho e fisionomia fidelíssima à descrita no livro de Shriver).
Eva é companheira de Franklin (John C. Reilly, bom ator, mas um pouquinho deslocado,miscast, na película). Ele é um tanto mais sintonizado com questões terrenas (e sem grandes questionamentos) que ela, a ponto de perguntar, durante preliminares, se ela tinha certeza - certeza do sexo sem proteção. A pergunta ficou sem resposta, e veio Kevin, que pintaria de vermelho a vida de Eva.
A responsabilidade por outro ser humano, para uma mulher tão ligada ao desprender-se de si mesma, cresceu dentro dela e se transformou numa deformidade, uma barriga imensa. Enquanto outras mães, antes da hidroginástica, exibiam barrigas maiores sem qualquer intenção de exibi-las, Eva, constrangida, não sabia como se mostrar, nem se era para se mostrar. Ela não sabia o que fazer com aquilo, nem saberia pelos próximos anos.
"Aquilo" nasceu e passou olhá-la nos olhos. "Aquilo", quando adolescente, mais uma vez mergulhou Eva num mar vermelho. Ao contrário da Tomatina, uma comunhão lúdica entre estranhos, as águas vermelhas nas quais Eva foi arremessada pelo filho foram o sangue de uma chacina estudantil: Kevin Katchadourian trancou colegas no ginásio da escola e os matou (mas isso não foi tudo).
Eva então se vê numa terra para qual nunca queria ter ido, a dos párias. Ela é a mãe do assassino, a genetriz do mal, a responsável. Agora seu nome é conhecido, não é mais uma entre tantas; sua vida, uma angústia concêntrica, sem espaço para as aventuras do desgarre; seus dias, pesados. Eva não é livre.
Se no início da película vemos Eva experimentando a aparente suspensão de cultura e civilização por estar imersa no anonimato lúdico da coletividade, Kevin atira a mãe para fora da sociedade, fazendo recair sobre si a mão cruel dos códigos civilizatórios (que ele destruiu e com os quais não se importa) e sobre ela o preconceito ultrajante da cultura.
O filme de Lynne Ramsay é (perdoe a pompa) o binômio comunhão-marginalização, e em ambos os termos a cor predominante é o vermelho. (A direção de arte, que é muito competente, não poupa o espectador desta obviedade.) No decorrer dos cem minutos da película, a Eva de Lynne Ramsay é caracterizada como a Hester Prynne de Nathaniel Hawthorne, porém sem a resignação nem a fibra moral intrínsecas. Estas forças Eva se empenha com o pouco de energia que lhe resta para desenvolver. Posso dizer que o filme é exatamente isto: a luta de Eva para fortalecer a si mesma durante a marginalização que sofre após a chacina. A comunhão com o filho é mais aspecto deste processo, não o cerne de sua reestruturação.
26 de dezembro de 2011
An Android's Memories









Thomas Kaluzny (já publicado aqui) e a terceira versão das memórias de um androide. (A primeira e a segunda versões.)
15 de dezembro de 2011
Greatest

Clay comes out to meet Liston
And Liston starts to retreat
If Liston goes back any further
He’ll end up in a ringside seat.
Clay swings with a left,
Clay swings with a right,
Look at young Cassius
Carry the fight.
Liston keeps backing
But there’s not enough room
It’s a matter of time.
There, Clay lowers the boom.
Now Clay swings with a right,
What a beautiful swing,
And the punch raises the bear,
Clear out of the ring.
Liston is still rising
And the ref wears a frown,
For he can’t start couting,
Till Sonny comes down.
Now Liston disappears from view.
The crowd is getting frantic,
But our radar stations have picked him up
He’s somewhere over the Atlantic.
Who would have thought
When they came to fight
That they’d witness the lauching
Of a human satellite?
Yes, the crowd did not dream
When they laid down their money
That they would see
A total eclipse of the Sonny!
I am the greatest!
--
Os versos estão no livro O rei do mundo - Muhammad Ali e a ascensão de um herói americano, de David Remnick (Companhia das Letras, 2011, tradução de Celso Nogueira).
1 de dezembro de 2011
p. 31
Paul jogava continuamente pela janela os tesouros do seu espírito como sua fortuna, mas enquanto sua fortuna rapidamente foi definitivamente jogada pela janela e completamente esgotada, os tesouros do seu espírito eram realmente inesgotáveis: ele os jogava continuamente pela janela e (ao mesmo tempo) eles só faziam crescer e se multiplicar, quanto mais ele jogava os tesouros do seu espírito pela janela (de sua mente), mais eles aumentavam, o que caracteriza pessoas desse tipo, que são primeiro um pouco loucas e que terminam sendo chamadas de completamente alienadas, é que elas jogam cada vez mais, sem descanso, os tesouros de seus espíritos pela janela (de suas mentes) e que, simultaneamente, em suas mentes, os tesouros se multiplicam tão depressa quanto elas os jogam pela janela (de suas mentes). Elas jogam cada vez mais os tesouros pela janela (de suas mentes) e - ao mesmo tempo - em suas mentes há cada vez mais e, naturalmente, cada vez mais ameaçadores e finalmente, jogando assim os tesouros de seus espíritos pela janela (de suas mentes), elas não podem manter a cadência, e suas mentes não podem mais conter todos os tesouros que não param de se multiplicar em suas mentes, e que se acumulam nessas mentes, e essas mentes terminam por explodir. Foi simplesmente assim que a mente de Paul explodiu, porque ele não pôde mais, naquele ritmo, jogar pela janela (de sua mente) todos os tesouros do seu espírito. Foi assim também que a mente de Nietzsche explodiu. Afinal de contas foi assim que todas essas mentes loucas e filosóficas acabaram por explodir: porque não podiam jogar bastante depressa pela janela os tesouros dos seus espíritos.
17 de novembro de 2011
UFC on Fox, UFC na Globo
Publiquei primeiro no MMA Brasil.
Queixo de titânio, mãos de chumbo, pulmões de ferro. Muitas metáforas são dedicadas a Cain Velasquez. Para tanta estilística, talvez não existam metais suficientes na tabela periódica. Velasquez é um milagre da metalurgia. Atropelou todos os oponentes que lhe ofereceram. Ele fez Brock Lesnar parecer uma boneca de pano e infligiu o primeiro nocaute legítimo da carreira de Rodrigo Minotauro (provas das mãos de chumbo). Foi impiedoso no castigo que aplicou em Ben Rothwell. Em sua única luta que demorou quinze minutos, foi incansável na surra que assentou em Cheick Kongo, mesmo tendo sofrido uns knock-downs durante o percurso (provas do queixo de titânio e dos pulmões de ferro). Velasquez entrou no UFC com apenas duas lutas profissionais. Apenas duas lutas profissionais. Até colidir com Junior Cigano, foi vencedor em 100% dos combates, 89% deles por nocaute/nocaute técnico. Já acontecia de seu nome, nas listas dos melhores peso-por-peso da atualidade, aparecer perigosamente próximo aos de Anderson Silva, Georges St-Pierre e José Aldo.
Velasquez era o favorito nas apostas para o UFC on Fox 1, evento que aconteceu no dia 12 de novembro, em Anaheim, Califórnia. Seu favoritismo, embora não exorbitante, era claro e se baseava em tudo aquilo que você leu no primeiro parágrafo (mas apostei em Cigano desde o início). Pela sua trajetória e pela maneira como conseguiu o título, espancando Lesnar, Velasquez parecia inaugurar uma nova era entre os pesados. Um reinado longevo, como o de GSP ou o do Spider, era a expectativa nutrida em relação ao campeão mexico-americano. Uma expectativa que diminuiu muito pouco nestes meses de inatividade, tempo que precisou para se recuperar de uma cirurgia no ombro. Enfim, era uma expectativa justificada. O cara bate forte, aguenta pancada, troca bem; foi um wrestler extraordinário, tem o preparo físico de guepardo e o coração de um leão. No horizonte, o único senão em seu arsenal era um grappling (jiu-jitsu, para ser exato) não-lapidado, como se viu no combate contra Kongo.
Este é o homem que Junior Cigano destronou. Cigano precisou de um pouco mais de um minuto e um cruzado de direita. Supreendente. O desafiante começou sua jornada no UFC também de forma surpreendente.
Alguns lutadores tiveram, digamos, a sorte de estrear no UFC numa luta que, em teoria, mais parecia um exercício de sadismo de Joe Silva e companhia. O primeiro adversário de Paulo Thiago dentro do Octógono™ foi Josh Koscheck. Era de se perguntar o que o Caveira havia feito para merecer isso. O bom é que Paulo Thiago nocauteou Koscheck. Brock Lesnar começou sua carreira no UFC encarando um ex-campeão e exímio grappler, Frank Mir, para mim o melhor jiu-jitsu dos pesos-pesados. Era a segunda luta profissional de Lesnar. Que ele perdeu (para o jiu-jitsu de Mir), mas deu trabalho e mostrou a que vinha. Cigano também faz parte desse grupo de gente feliz. Sua primeira luta como empregado da Zuffa foi contra o então número 5 no ranking dos pesos-pesados, Fabricio Werdum. Cigano, em 2008, lutou no DEMO Fight e, meses depois, foi enfrentar Werdum no UFC, vencendo e ganhando o bônus de nocaute da noite. Meça as proporções.
Werdum foi à lona. Cigano apresentaria a lona a outros oponentes. Uma sequência de nocautes/nocautes técnicos que não precisa de adjetivos: Stefan Struve, Mirko Cro Cop, Gilbert Yvel, Gabriel Gonzaga. Exceto por Cro Cop, que pediu para sair no terceiro round, os demais infelizes perderam a consciência no primeiro round. Depois de Gonzaga, dois espancamentos garantiram as duas únicas vitórias por decisão em sua carreira até agora: Roy Nelson e Shane Carwin. Cigano fez o que pode para apagá-los, acredite, mas Nelson e Carwin não nasceram para ser nocauteados. É bem provável que sigam suas carreiras e se aposentem sem jamais sofrerem um nocaute. (Curiosamente, o único nocaute sofrido por Nelson foi aplicado pelo queixo de vidro mor, Andrei Arlovski.) O que há de interessante nestas duas vitórias de Cigano é que o vimos diversificando um pouco seu jogo, aplicando quedas e dando chutes altos.
A vitória sobre Carwin, em particular, tem um componente que faz a diferença quando o que se pretende é ser campeão. Confiança. Claro, Cigano desde o início demonstrou confiança, mas o argumento aqui vai mais além. Ele tinha garantida a disputa de cinturão contra Velasquez, mas preferiu não esperar o então campeão se recuperar para lutar pela sua coroa. Mesmo tendo otitle shot garantido, ele topou ser técnico no TUF 13 e enfrentar Brock Lesnar ao fim da temporada para se manter ativo. Lesnar se machucou, foi substituído por Carwin, outra pedrada. Lesnar ou Carwin, Cigano botou o title shot pra jogo só porque não queria ficar parado. E venceu. Húbris.
Cigano ter vencido Velasquez de forma fulminante não é tão assustador. Assustador mesmo é ele ter imposto a luta dele a todos os oponentes, inclusive a Velasquez, em que pese o erro estratégico de querer trocar com o melhor boxeador do UFC. Desde Werdum que Cigano tem vencido em pé. Não lembro de uma queda bem sucedida (para o oponente) que Cigano tenha sofrido.
A primeira defesa de cinturão do novo campeão, que será contra o vencedor de Brock Lesnar vs Alistair Overeem, pode por à prova a capacidade dele de impor a luta que quer lutar. Se oscript sofrer alterações, como ele vai se comportar de costas pro chão com Brock Lesnar pesando sobre ele? Como ele vai reagir à trocação de Alistair Overeem, um monstro nokickboxing? Overeem ou Lesnar, numa luta de cinco rounds, como Cigano vai lidar com um oponente atleticamente poderoso? Perguntas incômodas, mas aposto no húbris de JDS.
Cigano disputou o cinturão num momento que podemos elencar, pela cronologia, como o quarto mais importante da história do esporte. O primeiro, a criação do UFC, obviamente. A formalização de uma prática brasileira sob um nome expressivo e dentro de um ringue icônico. O segundo momento, a compra do UFC pelos irmãos Fertitta. O terceiro, a histórica batalha entre Forrest Griffin e Stephan Bonnar na final do TUF 1 (impossível se cansar de assistir a esta luta), com certeza o evento intrarringue mais significativo para a expansão do esporte e da marca UFC. O que nos leva ao quarto momento: o MMA conquistando o mainstream. É como se as porradas entre Bonnar e Griffin, em abril de 2005, tivessem causado os tremores que se transformaram nesta tsunami que chega agora à praia do mainstream, com o evento UFC on Fox. É uma tsunami tão gigante que devastou terras mais ao sul da Califórnia. A Rede Globo, que há bem pouco tempo demonstrava um tímido interesseem exibir MMA, fez milhões de brasileiros vibrar com o cruzado de Cigano, narrado por Galvão Bueno, seguido pelo indefectível “Brasil-sil-sil”.
Não dá pra ser mais mainstream que isso: “narração de Galvão Bueno”. Estas aspas já valem mais que trocentos parágrafos sobre a expansão do UFC, a popularização do esporte, o crescimento do mercado de lutas, etc. Sobre Galvão, é preciso dizer que, mesmo ele tendo feito tudo o que se esperava dele, mesmo ele tendo agido como Galvão Bueno (“Os gladiadores do terceiro milênio!”), ele fez um bom trabalho. Até porque o match o favoreceu: Cigano é um boxeador, Galvão está familiarizado com isso e o combate foi rápido.
Agora, temos um novo herói nacional, Junior Cigano, apresentado por Galvão Bueno à população. É como se finalmente o Brasil dos lutadores fosse redescoberto. Ídolos para uma nova mentalidade, distinta daquela vira-lata antiquada. Ídolos finalmente reconhecidos, depois de tanto preconceito sofrido. Ídolos do esforço continuado e da disciplina, artistas marciais idolatrados em todo o globo, expoentes do esporte que mais cresce em todo o planeta.
10 de novembro de 2011
Xamãs & Concurseiros
Pois bem, o palestrante havia passado num concurso público. Dataprev, INSS, TCU, um concurso assim. Esta, na verdade, era sua única credencial (que tem seu mérito, claro). Nada, nenhuma experiência como palestrante, instrutor, facilitador, nada. Eu, sentado numa desconfortável cadeira de plástico, dediquei horas àquele sujeito para ouvi-lo dizer, sem brilho algum e repetidamente, que só passa em concurso quem estuda. Quem estuda, estuda, estuda. Ele não contou piadas. Nem fábulas edificantes. Ele falou muito, mas à minha frente, e eu estava na fila dos perdigotos, eram só ele, seu cabelo arquitetado em gel, sua gravata de liquidação, seu relógio jurássico e um microfone, que transmitia às caixas de som uma voz cadenciada e anódina. Ele não usou o então onipresente retroprojetor, sobre o qual costumavam repousar transparências rabiscadas à mão com pincel atômico. O hoje estapafúrdio e constrangedor PowerPoint era uma realidade muito distante. Àquela época, acho que só o Steve Jobs usaria*.
O palestrante. Ele tampouco agraciou os presentes com histórias divertidas de primos distantes ou de antepassados batalhadores - narrativas que forçosamente teriam de ter uma mensagem edificante. Não, nada, ele não as contou. Fofoquinhas de cunho profissional-moralizante sobre colegas de trabalho? Nenhuma. Macetes de memorização e leitura dinâmica? Nem de longe. Indicações de livros e, se possível, breves análises bibliográficas? Inexistentes. Instruções sobre como montar mind maps? Esqueçam, não havia essa moda naquela época. Recomendação de alimentos bons para o cérebro e de snacks que combinam com a hora de estudos? Não, nada. (Embora ele tenha dito que "Tomar suco é bom", genericamente falando.) Breves explanações, só a título de vaidade promocional, sobre a diferença entre complementos nominais e adjuntos adnominais, ou sobre a diferença habeas corpus e habeas data, ou sobre a diferença entre atos normativos e atos enunciativos? Não, nenhum conteúdo da santa trindade das disciplinas concurseiras (língua portuguesa, direito constitucional e direito administrativo) foi contemplado, por mais rasteiro que fosse.
Enfim, o homem cobrou uma fortuna, umas duzentas - duzentas! - pessoas, um bando de inseguros, néscios, angustiados, compareceram e elogiaram o desempenho do palestrante insípido. Alguns saíram até comentando que "Poxa, faz todo sentido", ou "É, ele tá certo", ou "Ah, agora, sim, eu passo", ou "Podia ter demorado mais, né?" e por aí vai. O ilustre palestrante conseguiu segurar sua platéia por milênios, numa palestra sem graça e totalmente desinstrutiva, para repetir, tautologicamente, o que todos aqueles imbecis poderiam dizer, ou diziam, à frente do espelho: "Preciso estudar".
Ele conseguiu a proeza de não usar nenhum clichê de palestras motivacionais para concursos e, mesmo assim, fazer um trabalho insípido, apenas repetindo o mantra: "Estudem". Achei curiosa a postura de conselheiro do palestrante. Ele falava - mas não conversava com a plateia, não houve interação - como se fosse um padrinho que dava uma gentil bronca nos afilhados, como se os pais verdadeiros tivessem acabado de sair da sala, furiosos, e o afilhados, se sentindo culpados por alguma bobagem que tenham feito, estivessem para ser reconfortados pelo padrinho, o good cop. "Estudem", dizia o palestrante, sorrindo - e a combinação do sorriso sem vida com a gravata ordinária era perturbadora.
Hoje, me parece, os mestres concurseiros fazem tudo aquilo que o palestrante insosso deixou de fazer - e fazem mais. Cantam, dançam, improvisam. Contam histórias e piadas, fazem confissões e choram. Inventam macetes para aprender macetes. Criam acrósticos e anagramas para memorizar acrósticos, anagramas, macetes e metamacetes. Ensinam a arte da confecção de mapas mentais (para organizar melhor os decorados acrósticos, anagramas, macetes e metamacetes) e alguns oferecem a técnica da árvore hiperbólica. Os novos palestrantes sobem ao palco e quebram tábuas com golpes de caratê! Vale tudo para convencer uma pessoa de que ela pode passar num concurso público (relembrando, "aprendizado de conteúdo" ou "realização profissional" são fatores secundários).
Mesmo que a performance dos palestrantes tenha sido enhanced (eles adoram esses termos, você sabe), a impressão que tive em 1998, quando saí do Templo da Boa Vontade e, faminto e furioso, fui caçar uma pizzaria, é a mesma que tenho hoje. As pessoas pagam para ter a autoestima insuflada, em muitos casos sabendo que o cotidiano vai cuidar de murchá-la novamente. O serviço pelo qual pagam não é um desempenho pedagógico, mas uma atuação de baixo xamanismo.
No fim das contas, não é o clichê de que as pessoas pagam para se sentirem capazes que sobressai, mas o de que é fácil ganhar dinheiro. "Estudem."
* Brincadeirinha.
O amor e o UFC Rio
Publiquei primeiro no MMA Brasil.
O grande dia foi 27 de agosto de 2011, um sábado, dia do UFC Rio. Um card estelar: os três maiores lutadores brasileiros da história do MMA entrariam no Octógono™. O melhor artista marcial do planeta defenderia seu cinturão de campeão peso médio, Anderson Silva. O meio-pesado mais letal do esporte recomeçaria sua jornada rumo ao topo, Maurício Shogun. O legendário peso pesado Rodrigo Minotauro lutaria em casa pela primeira vez. O UFCretornaria ao Brasil, útero do esporte. O evento, na íntegra, seria transmitido a cabo, e a tevê aberta exibiria o card principal. À medida que o evento se aproximava, não se falava de outra coisa. Clubes de futebol entraram na dança, patrocinando lutadores. A dita “grande mídia”, a leiga, deu atenção ao evento, mesmo que alguns veículos o tenham feito de forma comedida e outros de maneira, no mínimo, atrapalhada (era como ver jornalistas especializados em economia marciana cobrindo um carnaval fora de época no Butão). O UFC Rio era o grande evento do ano. Mas para mim não foi. Quer dizer, também foi.
O grande dia foi 27 de agosto de 2011, um sábado, dia do casamento do meu cunhado. Casamento do qual fui padrinho.
Quando o mundo soube que no dia do UFC Rio eu estaria de terno e gravata, abençoando, felicitando e testemunhando a cerimônia do amor indissolúvel de um casal apaixonado, comecei a ouvir coisas como: “Qualé, Guilherme! Dá um balão nesse cunhado, cara! UFC RIO!” Por alguma razão, não adiantava contra-argumentar, dizendo que o que importa é a celebração do amor e da felicidade. As pessoas continuavam enfáticas: “UFC Rio, porra!”
Família é família. Gosto dos meus cunhados, tanto dos armários irmãos da minha esposa quanto do marginal que dorme com a minha irmã. Estava decidido. No dia 27 de agosto, evitaria o bullying pró-UFC Rio: desligaria o celular para não receber as mensagens que tanta gente ameaçou me mandar, contando os resultados das lutas e tentando me espezinhar por não assistir ao evento (o cunhado marginal foi o primeiro a fazer isso). Aquele sábado era o dia da celebração do amor – e nada pode ser mais importante que isso. Ponto.
A cerimônia foi linda. A igreja escolhida, como é frequente aqui em Brasília, tinha uma arquitetura muito interessante, e uma pinacoteca um tanto pitoresca. O padre, que me surpreendeu, pois raramente dou atenção ao que padres dizem, celebrou de forma moderna e leve, fez um discurso pé no chão e também romântico, bem bonito. O noivo aparentava estar calmo, a noiva estava belíssima, a mais bonita que já vi.
Depois da cerimônia, a recepção. Um salão de festas enorme e muito bem decorado, de bom gosto. Uma mesa “protagonista” muito bem posta e elegante me esperava, um dos privilégios de ser família e padrinho. Garçons por todos os lados, servindo todos os tipos de hors d’oeuvresque você puder imaginar. Bebidas de todos os tipos sendo distribuídas em todas as direções. O serviço todo muito simpático, solícito e diligente. A música, embora não lembre qual era, cumpria a função de trilha sonora para momentos felizes – e as crianças correndo e dançando eram os elementos cenográficos que confirmavam a felicidade do momento. Mas a noite estava um pouco fria, tive de pegar um casaco para minha filha. O casaco estava no carro. Do paradeiro do carro, só sabiam os manobristas. É aqui, leitor, por conta desta necessidade, que o UFC Rio passa a existir.
Eles haviam sumido, os manobristas. “Estão vendo televisão”, disse a hostess. Pensei um pouco sobre o que fazer com esta informação. “Como é que é?”, perguntei. A hostess explicou tudo de novo. O carro estava demorando a aparecer porque os manobristas estavam assistindo à tevê e não sabiam com quem estava minha chave. Ela se desculpou pela demora, me ofereceu uma cadeira e disse que ia ela mesma lá onde eles estavam. “Eles têm uma tevê?”, perguntei. Nem lembro o que ela respondeu porque eu mesmo fui “lá onde eles estavam” pegar a chave.
Agasalhei a criança e disse à minha esposa: “Os manobristas têm uma televisão!”. Roubei uma garrafa de espumante do buffet e saí correndo pelo estacionamento, pondo à prova toda a elasticidade e resistência da lã super 120 de que era feito o terno. Me juntei aos manobristas para assistir ao histórico evento numa televisão de catorze polegadas e a cinco metros de distância.
A primeira luta a que assistiria seria a do Minotauro. Todos nós conhecemos Minotauro. Ter visto a luta dele com aquela galera foi ótimo, porque eles não eram, digamos, “do meio”. Eram todos neófitos no assunto – o que fez deles os torcedores mais alegres e espontâneos que já vi (o mais entendido deles disse: “Demian Maia, aqui do BOPE de Brasília, vai lutar hoje ainda”). Eles só queriam assistir às lutas, entre uma requisição de carro e outra, embora um deles tenha dito: “Tomara que ninguém peça carro agora!”. A iniciativa da tevê aberta de promover o MMA apresentou mais ídolos aos brasileiros. Ídolos que dão a cara à tapa, literalmente. E ninguém dá a cara à tapa “melhor” que Minotauro. Meus parceiros neófitos não sabiam disso, ainda bem. Se soubessem que qualquer luta do Minotauro é capaz de causar infartos em massa, teriam o feito o mesmo que eu: espocado o espumante e entornado três taças seguidas.
Minotauro é o único lutador do mundo do qual é impossível apostar na derrota. Você pode ou apostar na vitória dele, ou se abster de apostar qualquer coisa. Mas nunca se aposta na vitória de um oponente dele. Pois lá estava Brendan Schaub, o único lutador da noite a querer o título de vilão. Ele ia lutar contra nosso maior ídolo peso-pesado, tendo pedido por esta luta – tanto o adversário quanto o lugar. Mais jovem, mais forte, mais rápido, mais comprido, mais alto, mais pesado, mais saudável. Ainda assim, com tudo em desfavor de Minotauro, é impossível abrir a boca pra dizer que ele vai perder. Haja taça de espumante!
Quando a luta começou, não havia bebida que desacelerasse meu batimento cardíaco nem que afrouxasse aquele aperto no peito, tão familiar aos fãs do Big Nog. Ainda tentando me adaptar à angústia de assistir àquela luta, me surpreendi ao ver que Minotauro, o velho, o lento, o operado, o inativo, era quem fazia a luta acontecer, quem ia pra frente. (Mais espumante.) Aí ele foi atingido e dobrou os joelhões algumas vezes, para o nosso desespero – e mesmo assim a gente sabia que nada estava decidido, que, quanto se trata de Minotauro, por mais perdida que esteja a luta, tudo pode acontecer. E aconteceu! E até agora todos nós ainda ficamos arrepiados ao lembrar que Minotauro reverteu todas as expectativas quando tudo já parecia ter um destino certo. (Mais espumante.) Talvez Minotauro seja o mais brasileiro dos nossos lutadores. O cara não desiste nunca, nenhuma luta dele é fácil, ele não se queixa nem se explica (explicou-se ao vencer Schaub, sobre os problemas físicos por que tem passado, mas nunca os usou como desculpa quanto às derrotas para Frank Mir e Cain Velasquez). Minotauro é um herói tão brasileiro que exemplifica uma mentalidade da qual aos poucos, acredito, estamos nos desvencilhando: a de que é preciso fazer sucesso lá fora para ser reconhecido aqui dentro. No UFC Rio, Minotauro lutou em casa pela primeira vez.
Voltei correndo para o salão de festas, desta vez pondo à prova a integridade dos meus ossos, visto que sofria de déficit psicomotor de equilíbrio. Tirei foto com os noivos, que perguntaram da luta. “MINOTAURO POR NOCAUTE!”, respondi.
A luta de Maurício Shogun não me preocupava. Juro. Na verdade, a única luta que me preocupava era a do Minotauro. Quando retornei à tenda dos meus mais novos amigos de infância, taquicardia, sudorese, tremores, não tive nada disso. Era só sentar e relaxar. Shogun, nocaute técnico.
Gostei daquele Shogun. Tenho minhas dúvidas quanto à volta do “Shogun do Pride”, mas gostei da apresentação dele no UFC Rio. O estilo que fez Shogun famoso é fundamentado numa coisa que tem um tempo de vida relativamente curto: juventude. Desde a primeira luta de sua carreira até o segundo combate contra Alistair Overeem, o que fez dele o lendário Shogun Rua foram o ímpeto, a disposição, a agressividade, o fôlego – a selvageria. Marcas da juventude. O rapaz foi campeão do Pride aos 23 anos, pisando na cabeça de quase todo mundo, literalmente. Agora, prestes a completar 30 anos (um garoto para vida, um não-garoto para o esporte) e depois de algumas cirurgias no joelho, fico meio receoso quanto ao futuro dele na categoria. Mesmo assim, gostei dele contra o Forrest Griffin. Uma característica própria do Shogun é ter um instinto assassino certeiro. Ele sentiu o aroma de sangue e Forrest, zonzo, mal teve tempo de respirar – nocaute. Outra coisa que podemos constatar a partir desta luta é que ele treinou de verdade e não subestimou o adversário, coisas que o fizeram perder o cinturão.
A garrafa de espumante já estava vazia, e eu meio que noutra dimensão, quando soou o gongo da última luta da noite. Se até agora a vitória do Minotauro me arrepia, a do Anderson me deixa sem palavras. Ele deu um round de presente ao adversário. Ele ia lutar contra o melhor lutador japonês da atualidade, um ótimo peso médio, forte e resistente, e se deu ao luxo de se aquecer por um round. Ele, já no segundo, derrubou Yushin Okami com um jab. Um jab. E deixou o desafiante se levantar. Ele deixou o desafiante se levantar. E o derrubou novamente, e o nocauteou. Ele fez tudo isso. Fez o que quis. Não é preciso dizer nada.
Me despedi dos meus amigos, que me consideram o padrinho mais gente boa que eles já conheceram.
O salão de festas estava em ebulição. Alheios ao que eu tinha acabado de ver na tevê, todos festejavam o amor. Dançavam, comiam, bebiam, conversavam, riam. Entrei na onda. O melhor de todos os casamentos.










