15 de dezembro de 2005

Morte de um Soldado Legalista





"If your pictures aren't good enough, you aren't close enough."
Robert Capa


Uma hora a hora chega, e chega mesmo. Num segundo, a vida cessa, acabou. Não conheço ninguem que tenha vivenciado aquele famoso limiar entre a vida e morte, nem eu o vivenciei, infelizmente, p’ra dizer como é. Só nos resta imaginar como seria, cada qual se baseando em suas crenças particulares, ou em suas descrenças, tanto faz.
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Assumo, com toda sinceridade que me posso oferecer, que em relação à morte não sei se há vida depois, ou coisa que lhe seja semelhante. Reencarnação, Paraíso, Inferno, "fluxo atemporal da vida eterna", o que for: qualquer coisa que ateste uma existência após essa vida que vivemos agora me é estranha e duvidosa. Sobre isso prefiro me abster. Eu, realmente, não faço idéia da idéia que tenho sobre isso. Mas posso imaginar, assim como todos nós, como é o pico-segundo que separa nossa existência do nada, ou do "alguma coisa além" para outros.
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Robert Capa, fotojornalista. Foi especialista em guerras. Cobriu algumas... Guerra Civil Espanhola, Segunda Guerra Mundial, Guerra do Vietnã... Seu lema foi: "Se suas fotos não estão boas o suficiente é porque você não está perto o bastante." Já a partir de sua filosofia se vê que a vida era de tal forma intensa que era preciso ficar cada vez mais perto, era preciso a maior proximidade possível dela para registrá-la. E a vida é assim mesmo: ela está presente em tudo, a toda hora, mas passa, passa incessantemente e quando menos esperamos – já foi! Paradoxal isso, é verdade, mas não tenho como colocar de outro jeito, se outro jeito houver.
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O trabalho fotográfico é precisamente captar e registrar aquele ínfimo instante de vida que carrega um conteúdo de expressão tendente ao infinito. É conseguir capturar aquele momento, aquele momento de paroxismo. É nisso que o fotojornalismo se transforma em arte – ele capta a quintessência de um instante e o eterniza. A imagem, que é obviamente o registro deste instante, leva à posteridade um momento específico seja de dor, seja de sofrimento, seja de alegria. Curioso é perceber como o fotógrafo mediante a imagem captura algo em determinados tempo e espaço e esse algo se torna atemporal e universal. Noutras palavras, um ser humano, localizado em determinado espaço, situado em determinado tempo, exclui tanto o tempo quanto o espaço mediante a imagem ao registrar um evento, evento este que muitas vezes envolve outro ser humano. Acredito que essa eternidade conferida ao evento fotografado se deve ao fato de que o agora foi agarrado pelos cabelos e fixado em imagem.
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No caso aqui apreciado, a foto "Morte de um Soldado Legalista", esse agora representa o exato instante em que o mesmo agora não existe mais. Não existe mais pelo menos pelo que posso imaginar. O agora de Federico Borrel, o soldado fotografado, é a morte, é o cessar de viver. A imagem apreendeu precisamente a ocorrência da vida que deixou de ser, do pico-segundo que separa nossa existência de outra coisa, que p’ra mim seria o nada.
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Também é curioso ver como o Belo nesta obra de arte é a morte. A máxima de que o Belo independe do Bom ou do Mal me é verdadeira.
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Olhe a foto. Federico Borrel é o nome deste soldado. Ele teve uma vida da qual não fazemos a menor idéia, assim como a maior parte da humanidade que nasceu, viveu e morreu e nem fazemos idéia disso, uma imensa população de anônimos, tanto quanto somos anônimos a intermináveis outros. Saramago já expôs isso melhor que eu, claro está.
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Federico Borrel. Soldado legalista espanhol que morreu lutando por algo, em 1936, com uma arma na mão e um tiro na cabeça. No entanto, ei-lo aqui, neste sítio, visualizado por nós. Robert Capa, o grande fotojornalista do século XX, eternizou o pico-segundo do limiar entre a vida e a morte na vida de Federico Borrel. Robert Capa sabia que a vida é tão intensa que é preciso chegar perto, mais e mais perto para senti-la, capturá-la, eternizá-la.
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Robert Capa morreu durante a Guerra do Vietnã, fotografando soldados durante o combate. Robert Capa, fotografando soldados, pisou numa mina terrestre e deixou de existir. Ele estava perto demais e se imortalizou por isso.

Um comentário:

Clara Ramthum disse...

Muito bom o post. A sensibilidade com que você falou sobre a situação limite representada na foto me lembrou de uma certa tendência contemporânea à banalização... Hoje já não é incomum vermos circular pela internet vídeos do exato momento da morte de diversas pessoas. Até caça à la "gato e rato" vemos ao vivo dos helicópteros da Globo...
O que resultaria de uma comparação disso com a eternização pela arte do momento da foto de Robert Capa?

Enfim... Inspirador o post.