16 de outubro de 2007

Notícias do Planalto: Josué, bobinho...

“Eu tenho a chave de todo mundo aqui. Chave do carro, telefone do escritóro [sic], celular – tenho tudo!”. Quem fala isso é o Josué, lavador de carros.

Aqui, a Esplanada dos Ministérios, é um lugar generoso pra essa atividade: car wash. Estacionados de todo jeito, por toda parte, há carros que precisam de um banho. Mas os eles são adereços de cena. Os requisitados, as estrelas, os astros são os lavadores. Um deles é o Josué.

Josué não fala muito de sua, digamos, profissão. Não faz propaganda dos seus métodos alquímicos para conseguir a perfeita proporção de água e detergente (isso mesmo), específica para cada automóvel, de acordo com seu tamanho, cor, tipo de pintura, etc; nem menciona outros instrumentos e substâncias utilizados no processo. Ele não se gaba.

Ele pediu “licencia” pra ir entregar a chave do Chevrolet que acabou de lavar. Mas disse que volta logo.

A rotina dos funcionários na Esplanada é, em geral, a mesma. Oito horas da manhã começa a jornada de trabalho, interrompida ao meio-dia. Retorna às 14 horas e finda, quando dá, às 18. Então, vão para casa e suas respectivas famílias. Ou, às sextas, emendam com o happy hour. Horário de trabalho é pra trabalhar. Horário de almoço, porém, é polivalente. Almoçar, pagar contas, ir ao médico, fazer compras, negociar empréstimos, renegociar dívidas, etc. O lunch time também é hora de prevaricar.

Josué voltou. Questionado, Josué, segurando um sorriso maroto, responde: “Ah, moço! Aqui tem de um tudo!”. Como exemplo, citou o caso da mancha.

Um provecto funcionário público, cliente de Josué há tempos, precisou de uma lavagem urgente. Uma assepsia mesmo. Pela manhã, os proprietários chegam e vão jogando a chave na mão do Josué. Que sabe de cor que carro pertence a quem e como deve ser lavado. Um imenso molho de chaves, preso por arame, balança na sua cintura. Há uma ordem na lavagem, que corresponde à seqüência em que as chaves foram entregues. Quem chegar por último, não sabe se terá o carro lavado. Doutor Gervásio (nome fictício) chegou por último. Pra piorar, à tarde. Como não fosse suficiente, trouxe uma mancha branca no assento traseiro do seu Vectra.

Josué, profissionalíssimo, argumentou ao doutor Gervásio que não seria possível, infelizmente, lavar seu automóvel. Já tinha muita gente na frente, era sexta-feira, os proprietários sairiam mais cedo, por isso Josué tinha de correr com o serviço. Mas Gervásio foi surdo à lógica. Ignorou as palavras do car washer. Contudo, de incisivamente generalesco Gervásio passou pra desesperadamente implorador. Ofereceu três, quatro, mais que cinco vezes o valor tradicionalmente cobrado pela lavagem: R$ 5,00 só por fora, R$ 10,00 completo (dentro e fora), R$ 15,00 completo com cera (“cera da boa”, segundo Josué). Gervásio implorou, com um par de onças na mão. Josué aceitou os cem reais. E fez milagre: lavou todos os carros, mais o do Gervásio, em tempo recorde. Teve até direito a happy hour, porque foi embora mais cedo pra gastar duas onças em pinga.

“Nem acreditei!”. Josué conta o caso da mancha branca como o auge de sua carreira. Perguntei sobre o doutor Gervásio. Ele disse que, depois daquele dia, nunca mais o viu. “Com licencia, moço, tenho de continuar o serviço”. Me despedi dele, com um agrado de cinco reais pelo tempo de conversa.

Ao que parece, Josué não viu, no jornal local do dia seguinte àquela lavagem, a manchete: “Funcionário público é flagrado em relações sexuais com prostituta dentro do carro, no Parque da Cidade”. Uma foto do Gervásio, com cara de surpreso, decorava a matéria. A legenda: “Gervásio aproveitou horário de almoço para tirar o atraso”.

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