24 de outubro de 2007

Notícias do Planalto: O Sonho de Wallace

Aqui, na Esplanada dos Ministérios, alguns prédios têm restaurantes. Refeitórios self-service, na verdade. Almoço no refeitório do bloco A, que é onde Wallace trabalha. O quilo é barato (8 contos) e meu rango não passa disso, contando com a bebida. Esse preço atrai gente de outros ministérios. As filas são grandes: a de entrar, a de servir, a de pesar, a de pagar. Tanta gente assim atrapalha o sonho do Wallace. Ele é o responsável pela pesagem dos pratos. “Um servicinho de perôba”, diz. Um prato é posto na balança, uma mão lhe entrega a comanda, nela ele anota o valor; prato na balança, comanda, valor, e assim vai.

Mas nem sempre o serviço aborrece. Em dias aleatórios, geralmente duas ou três vezes na semana, Wallace exulta. São seus momentos encantados.

Catarina não-sei-das-quantas é o nome da moçoila. Ela trabalha em algum lugar na Esplanada. As letrinhas no crachá dela são muito miúdas, Wallace não conseguiu ler até hoje. A primeira coisa que viu nela foi a mão direita, na hora da pesagem, quando ela lhe entregou a comanda. “Ela tem mãos bonitas?”, perguntei. “Não. Tip’assim, não sei...”. Uma pulseira do Gama – Sociedade Esportiva do Gama – fisgou o jovem pesador de pratos.

As mãos que lhe entregam a comanda são anônimas. Wallace não vê rosto de ninguém: olha o peso na balança, anota o preço na comanda. Pronto. Mas “aquela vez foi diferente, tinha de ser”, comenta o pesador, aéreo. Perguntei como ela é. “Véi, é mó gata”. Não insisti em mais detalhes, pra evitar respostas genéricas, típicas de apaixonados. A cara de bobo dele era suficiente. Sabe com é, homem in love...

Uma pulseira do Gama no pulso da Catarina. Resultado: Wallace apaixonado. Ele mora no Gama e torce pela Sociedade Esportiva. Coração alviverde. Ele trabalha das 7h às 18h no refeitório. Em horários de pico, pesa; no resto do tempo, faz tudo. E faz tudo certinho, mas sem brilho. A não ser quando Catarina lhe entrega a comanda, ostentando uma pulseira do Gama. Aí é diferente. Wallace anota o preço com um desconto imoral, capricha na caligrafia, mostra seu sorriso dourado (ele tem um pré-molar de “ouro”) e termina a performance com um educadíssimo Boa tarde, tenha um bom apetite. Mas o tráfego de gente pra pesar comida é implacável; interrompe o momento mágico de Wallace. Prato na balança, comanda pro Wallace, valor anotado. Prato, balança, comanda, valor...

Wallace sonha levar Catarina, um dia, ao estádio Mané Garrincha pra verem, abraçadinhos, o Gama jogar.

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