20 de novembro de 2007

Confissões de um podólatra

Bofetadas de maridos ciumentos, denúncias por abuso e invasão de privacidade, tabefes de moças esnobes e outros contratempos forçaram Aderbal Castelonegro a mudar o foco de sua paixão. Resultado: Confissões de um Podólatra (Aoraki Editora, 2007).

Aderbal Castelonegro, 35, é professor de matemática. Solteiro convicto, mora com a mãe, Dona Stella, aposentada, no bairro de Casa Amarela, em Recife. Ajuda Dona Stella na “criação” do casal de poodles (Pedo e Podo), no cultivo de banzais e lhe faz companhia nos intermináveis domingos à frente da televisão. Embora Aderbal faça tudo isso com a dedicação esperada de um filho único, paixão mesmo ele dedica ao seu hobby de anos: pés.

Aos cinco anos, quando a falecida Dona Joana, amiga de sua mãe, lhes foi fazer uma visita, Aderbal foi enfeitiçado pela magia que o encanta até hoje, e que parece crescer mais e mais.

Dona Stella fora à padaria e deixara o pequeno Bal sozinho, brincando, à sua maneira, com as taças da casa. Ele viu na tevê um mágico de Las Vegas regendo uma verdadeira sinfonia de taças de cristal. Aderbal tentava repetir a arte, com taças de vidro. Foi quando Dona Joana chegou, como sempre, trazendo consigo uma algaravia de galinheiro em dia de abate. Falando pelos cotovelos, gesticulando loucamente, mal percebeu o pequeno Bal no chão do corredor, com a orquestra de taças à sua frente. Foi entrando e, como um trator, esmagou as taças com os pés.

Se no dia-a-dia Dona Joana já era um Galo da Madrugada, vendo sangue lhe escorrer pelos pés foi algo indescritível. Quando Dona Stella chegou da padaria, viu sua amiga sentada na poltrona do falecido pai de Aderbal, sob abanos do seu leque cigano, tendo o pequeno Bal a seus pés, fazendo curativos, limpando-os, acariciando-os. “Balzinho é um anjo, Stella, um querubim!”. Essas palavras determinaram o destino de Aderbal Castelonegro: podólatra. Segundo Aderbal Castelonegro, Dona Joana tinha pés bonitos e eram os únicos no bairro que exibiam unhas vermelhas.

Um caçador de pés, ágil como Jack Bauer, criativo como MacGyver, implacável como Chuck Norris. Esse é Aderbal Castelonegro. Montou até um consultório de podologia, mas, antes que a rotina roubasse o encanto da paixão, fechou-o (só depois lhe passou pela cabeça que poderia ser preso por exercício ilegal da medicina). Além do mais, receber pés em consultório não era a mesma coisa que caçá-los por aí, aventureiramente; e caçar apenas os bonitos e, obviamente, de mulheres.

Essa caça desvairada lhe rendeu as supracitadas desventuras. Por isso, Aderbal Castelonegro resolveu escrever um livro privilegiando os pés que ele mesmo excluía dos seus apetites: os feios. Um ano e meio fotografando, filmando e, investindo o conhecimento de professor de matemática, estudando as formas desses pés, com a aplicação da regra de Vitrúvio, a seqüência de Fibonacci e outros instrumentos teóricos. Um estudo da beleza inerente à feiúra. Belíssimo livro.

Nenhum comentário: