8 de novembro de 2007

Viagem no tempo: coisa de maluco?

Duas coisas, na mesma semana, me levaram do terceiro milênio ao século XVI. Um gesto racista e uma atitude escravocrata.

Estava eu na fila pra pagar o almoço. Era um restaurante “serve-serve”, perto do trampo. Na fila, eu, uma colega e vários desconhecidos. Daí que, de repente, a dona (ou esposa do dono) do nobilíssimo estabelecimento começou um charivari dos infernos. Motivo: um dos seus funcionários fez alguma coisa não do seu agrado. Eu não sei o que foi. Independente do que tenha sido, aquele estardalhaço causou mal-estar e vergonha em todo mundo – e foi uma pena muito maior à que o moço, supostamente, merecia.

A tal senhora xingou o funcionário de tudo que é nome, desde “incompetente” e “irresponsável” a “filho-da-puta” e afins. O coitado ficou lá, calado, tentando fingir que tava fingindo que não era com ele. Impossível: o restaurante inteiro era platéia.

Maltrato mesmo. Só faltou o chicote pra completar a cena escravocrata. Mas não ficamos todos só de espectadores, ainda bem. Nós, cada um a sua maneira, defendemos o rapaz. “Manda essa mulher tomar no cu, bróder” foi que me saiu pela boca. As demais manifestações em prol dele seguiram o mesmo estilo, digamos, contundente.

A coisa toda só parou, é óbvio, quando alguém agiu educada e racionalmente. A Do Carmo, minha colega: “Ninguém é obrigado é ver você fazer isso com o seu funcionário, não, minha senhora”, disse. E ao funcionário: “Isso é assédio moral. Você deveria entrar na justiça, sabia? O que não falta aqui é testemunha”. A fila andou e não ouvimos mais um pio. De ninguém.

Por alguns minutos, ficou no ar aquela sensação humanista de se manifestar ante injustiças e o caraleo-aquático. Sensação boa, muito bacana.

Depois do almoço, um cigarrinho. No fumódromo, encontro outro colega. Papeamos sobre o nada (trânsito, Jornal Nacional, supermercados, etc). Acabados conversa e cigarro, hora de voltar. No saguão, quatro elevadores pra subir. Esperamos aparecer algum. Que apareceu. O ascensorista viu que tinha gente esperando, mas, por não ser telepata, fechou a porta e subiu sozinho. Ninguém abriu a boca pra dizer “Peraê, por favor” ou pra perguntar “Ta subindo?”.

Esse meu colega ficou indignado: “Ele sabia que a gente ia subir e não falou nada, nem avisou. Só podia ser preto mesmo. Defeito da raça!”. Eu não acreditei. Na verdade, até agora eu não acredito. Mas eu vi e ouvi. Ou me convenço que fiquei maluco, ou aceito “a vida como ela é”. (Dentro do elevador, me senti obrigado a fingir que não conhecia esse meu colega. Pode me chamar de baixo, torpe, mesquinho, etc.)

Sabe aquela sensação de humanismo e justiça que falei? Pois é, cadê? Se você achar, me avise. Enquanto isso, vou me convencer de que o maluco sou eu.

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Informe-se: Assédio Moral e Diálogos Contra o Racismo

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