10 de dezembro de 2007

Martell, cachaça e vexames

O Martel desceu... castigando. Veja, até hoje soube administrar uma aversão inexplicável a tequila e cachaça. Tomo essas coisas já pensando em como evitar o vômito – e nisso adquiri um know-how fantástico. Por outro lado, mas pela mesma boca, vodka, também sem explicação, desliza goela abaixo melhor que água. Entre a involuntária repulsa a tequila e cachaça e a aceitação natural à vodka, veio o cognac.

“Ta doido? Bebida de homem, cara. Não é pra tomar assim, não”. O Pedro Ivo, meu bróder, me veio com esse esporro porque me viu pegando a taça bojuda e aquecida, um terço cheia de Martell, e despejando na boca como nem um retardado faria. Não só isso. Depois de engolir cognac num sonoro “glup”, tive o ignaro descaramento de dizer, e acho que toda a vizinhança ouviu, “Caraleo, mermão! Bota mais dessa parada aqui!”, enquanto sentia a garganta pedindo penico, um calor do cão devastando o esôfago e os olhos queimando, quase incendiando cílios e sobrancelhas.

Antes, um pouco de história...

Eu, recifense, esbarrei cedo numa tal de Pitú. Lá nos antigamente de 1984, numa fazenda lá em Buíque, eu e um primo fomos convidados pelos adultos (o padrasto dele e os peões da fazenda) a degustar um líquido diáfano de cheiro até então por nós desconhecido, mas de imediato malévolo. Na caçamba da D-20 branca cabine dupla, sob o sol acachapante e sobre a terra ardente do agreste, serviram-nos a tal bebida, entre risos e recomendações do tipo “Não é pra cuspir, não, viu?”, “Tem que ser cabra-hôme!”, etc.

Aqueles olhos adultos olhando pr’a gente em silêncio e cheios de expectativas eram, sem dúvida, sinal de que algum grande mal iria cair sobre nós. Mas eu tinha 4 anos e meu primo, 6. Por mais que nossa intuição nos berrasse à consciência “Sai correndo, tabacudo!” a curiosidade, como sempre, venceu. Permanecemos ali, hipnotizados pelos copinhos americanos à nossa frente, metade cheios, sentindo o clima estranho que, de repente, os adultos provocaram: um silêncio incômodo e não verdadeiro. Vieram, deles, as instruções: “Ó, é pra tomar de uma vez, visse? Depois ó, chupa uma carambola que passa”.

O “chupa uma carambola que passa” foi a minha consciência dizendo “Agora já era, tu ta lascado”. Como assim “chupa uma carambola que passa”?

A tragédia era inexorável. Eles, antes estranhamente mudos, começaram a gritar e incentivar os pirralhos: “Vai, vai, vai!” – “Toma logo, toma, toma!” e nós dois erguemos o copinho; à medida em que ele ficava mais perto da boca, aquele cheiro forte ia penetrando inadvertidamente pelas narinas. Seguindo o cheiro, o tal líquido mergulhou na nossa na garganta. Duvido muito que nossas mãozinhas tenham erguido e levado os copos aos lábios – foi algo mais, algum espírito malvado. Não teríamos coragem de fazer isso sozinhos.

Enfim, a Pitu desceu. Foi como um defloramento brutal (entenda como quiser). Meu primo, esperto, não poupou ninguém do vexame, nem a si mesmo, e saiu correndo, desvairado, atrás da primeira torneira que aparecesse. Eu, orgulhoso (leia-se otário), segurei o estômago com todas as forças do mundo. Fiz de tudo pra parecer incólume. Assim que meu primo saiu correndo os adultos se escarrancharam em gargalhadas homéricas. Por isso o otário aqui se segurou e tentou não fazer escândalo.

O episódio foi assunto até o final das férias – assim como o gosto de Pitu na boca, que só me deixou sei lá quanto tempo depois. Minha performance foi muito elogiada – mal sabem eles a implosão atômica que me foi aquilo. (Foi muito pior do que qualquer descrição que eu consiga fazer.)

Voltando ao Martell...

Tomei o Martell e foi aquela imoralidade. Imoral porque não é assim que se degusta Martell. Depois de algumas instruções de um especialista (o bróder Pedro Ivo é barman), o cognac foi tragado seguindo os ritos aristocráticos que mandam a tradição. E vou lhe dizer: que espetáculo de bebida. Experimente.

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