5 de dezembro de 2007

O Talento n'Os Maias (série e livro)

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janellas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.


Finalmente revi a série Os Maias. A Globo, definitivamente, acerta a mão em séries. Das que vi, Hoje é dia de Maria, Os Maias e Hilda Furacão são as melhores. Quase esqueço de Cidade dos Homens, mazacho que esse é outro caso.

A série, além de tudo, tem duas coisas que por si só já fazem valer a pena ver de novo: a narração de Raul Cortez e o desempenho de Walmor Chagas. Ambos os casos muito bem presenteados por Eça de Queiroz: o primeiro narra a história da família e o segundo vive Afonso da Maia, o trágico patriarca.

Agora, você que não viu a série, imagine aquele textinho do início ganhando vida à voz do Raul Cortez. Cada “aparição” do narrador durante a série é um deleite. Eu sei, o texto é de Eça, o que o faz ser belo até na voz do Darth Vader. Mesmo assim, as palavras de Eça na voz de Cortez... Eu não sei o que dizer, você precisa apreciar pra saber. E se você lembra da série, sabe o que falo.

Afonso da Maia. A impressão que dá é que Eça de Queiroz pensou nele quando escreveu Os Maias. A descrição física é idêntica. Provavelmente Eça ficaria surpreso em ver o Afonso que criou na pele de Walmor Chagas. Não só pela aparência, mas, e mais importante, pelo talento do homem que deu vida ao patriarca. Sério, o desempenho de Walmor Chagas na série é impressionante.

O Chagas traduziu numa atuação impecável tudo do Don Afonso. A cena em que ele espera o neto chegar da casa da agora irmã e o vê é, por me faltar o que palpitar, fantasmagoricamente soberba. Nas palavras do Eça: “Carlos não se moveu, suffocado; e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, cheios de horror, cahiram sobre elle, ficaram sobre elle, varando-o até ás profundidades d'alma, lendo lá o seu segredo.”

Neste trecho curto, você vê a dimensão trágica do que acabara de acontecer, o efeito disso em ambos e principalmente no velho Afonso e, claro, o talento colossal de Eça.

Outro trecho do livro, dentre vários, que causa arrepios e manifestações afins eu colo aqui para apreciação geral. Fala de Carlos da Maia e do que lhe passava em relação à Maria Eduarda:

“[...] aquelle corpo d'ella, adorado sempre como um marmore ideal, que de repente lhe apparecera, como era na sua realidade, forte de mais, musculoso, de grossos membros de Amazona barbara, com todas as bellezas copiosas do animal de prazer. Nos seus cabellos d'um lustre tão macio, sentia agora inesperadamente uma rudeza de juba. Os seus movimentos na cama, ainda n'essa noite, o tinham assustado como se fossem os de uma fera, lenta e ciosa, que se estirava para o devorar... Quando os seus braços o enlaçavam, o esmagavam contra os seus rijos peitos tumidos de seiva, ainda decerto lhe punham nas veias uma chamma que era toda bestial.”

Leia o livro pra saber tudo, ou veja a série.

Versão online do livro, em português da época, disponível em: Os Maias

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Imagem
Detalhe de "Gold Wing and Buttercup Roses", © Clay Perry/CORBIS, 2003

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