21 de janeiro de 2008

O macaco vigilante

“Hum... Esse aqui deve ter muito tiro, bombas, explosões e mortes. Vou levar”. E levei pra casa o Duro de Matar 4.0, veja você.

O macaco Joca, testemunha ocular e auditiva da agonia

As lembranças de Bruce Willis matando gente num prédio, em samaritana época natalina, fazendo piadas sem graça, eram no que eu pensava enquanto rolavam os créditos iniciais do novo Die Hard. Tava até com uma certa expectativa, sabe? “Uau! Bruce Willis” – etc e tal. Deu até vontade de chamar minha esposa pra vcr, pr’a gente se divertir vendo um blockbuster. Mas ela já dormia. Veria sozinho mermo, o que tem suas vantagens: mãos livres pra coçar qualquer coisa, dedos idem para a higiene nasal, flatulência liberada.

As bebidas mais apropriadas seriam ou uma cerva ou uma Coca dois litros, mas só tinha Schweppes Citrus. E dei um gole nela, enquanto a filha do John McClane pagava um sapão pra ele (atenção, paulistas: “pagar sapo”, em Brasília, é “dar um esporro”, ou coisa que o valha).

Já havia rolado uma explosão no filme, que matou dois nerds. A coisa tava tensa: McClane ia atrás de um outro nerd, um hacker, só pra escoltar o mané até uma quebrada aí. E aparece o mané, meu primeiro senão ao filme. O cara não era tããão engraçado assim. Às vezes até queria ser dramático, queria chorar, queria perder o juízo – que nem viúva italiana. Nessas horas, ele era engraçado. Mas enfim, aparece o mané – e aparecem os vilões, que falam francês. A decepção com o pirralho foi relevada com os bad guys francófonos. Fizeram um bom serviço: meteram bala. Mas aí o dinossauro Bruce Willis matou uns três. Acredite. Já me mexi no sofá, impaciente. Meio envergonhado. “Não é possível...”. Um dos vilões fazia parkour – isso, de novo, me fez relevar as proezas do John McClane.

E o filme continuou. Quanto mais proezas o detetive McClane fazia, mais envergonhado eu ficava. Quando ele explodiu um helicóptero com o arremesso de um carro e só se arranhou, eu catei meu boné do Superman e meti na cabeça, quase tapando os olhos: vai que alguém passa por ali e me vê? Deus me livre. E segue o filme. Não só o McClane, que era uma mistura de Jason Bourne com Chuck Norris, mas o pirralho, o hacker, parecia o Chaves com o cérebro da HAL 9000. E ainda tinha chiliques e crises de consciência durante o filme, né foda?!

A essa altura eu tava de boné, encolhido no sofá, coberto por uma manta; olhando pros lados, com receio que alguém me visse ali, na frente da tevê. O Kevin Smith faz um hacker, fá de Star Wars, é claro. Como desculpa pra não ver isso, eu me levanto pra verificar se a porta ta fechada mermo (pra ninguém me pegar no flagra). Volto pro sofá, me cubro todo com a manta, deixando só os olhos descobertos. Ainda assim, eu me preocupava muito mais em não ser percebido do que ver o filme. Se o próprio Kevin Smith parasse a cena, virasse pra mim e perguntasse alguma coisa – qualquer coisa! –, eu fingiria que não é comigo, desligaria o DVD. Mas continuei vendo a porra do filme.

O filme tinha duas coisas boas, o vilão chefe, um metrossexual desalmado, e a mina dele, que era boa de porrada. Mas quando chegou a cena em que McClane e a mina do vilão entram no elevador com uma BMW E60, brigam, o carro fica preso pelos cabos e, no fim das contas, ela morre e ele fica intacto, eu não me agüentei: cobri os olhos, rezando pra que ninguém aparecesse, apesar de só ter duas opções: minha esposa, que estava dormindo, e minha filha, que não desce as escadas ainda e que também dormia. Respirei fundo, deixei só um olho descoberto, tirei o som da tevê e deixei o filme rolar.

Por duas vezes eu dei uma pausa do filme, porque achei tinha ouvido passos na escada. Se fosse minha esposa eu desligaria a tevê e fingiria um desmaio. E por mais duas vezes eu repeti a operação, só pra me precaver: quando o vilãozinho francês fez um parkour mutante num tubo de refrigeração (só o Noturno dos X-Men faz aquilo) e quando o McClane rodopiou na cauda de um caça (isso mesmo, o caça rodopiava helicopteramente). Depois disso, desliguei a tevê num grande alívio. Joguei a manta longe (tava quente), tirei o boné, respirei fundo.

A vergonha era tanta que muitas partes do filme eu nem lembro mais, ainda bem. Enquanto fiquei no sofá, descansando da apreensão que foi ver aquilo, o relaxamento total só veio quando pensei: “Ainda bem que não fui flagrado”. Mas aí, colega, vejo o Joca, o macaco de pelúcia da minha filha. O Joca esteve ali o tempo todo, entre mim e a tevê, acompanhando cada segundo da minha agonia, cada minuto da minha sessão masoquista de vergonha e constrangimento, com aqueles olhos esbugalhados, vigilantes e implacáveis. O Joca parecia rir de mim. Aliás, ele, de fato, gargalhava. Nem falar ele conseguia, de tão forte o riso.

Dei um pinote e me escondi atrás do sofá, suando em torrentes. Rastejei até a escada e subi de gatinhas; continuei rastejando até a cama, entrei rapidamente por baixo do lençol e interpretei um sono de múmias até adormecer.

Até hoje o macaco Joca me olha com um sorriso malicioso.

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