30 de janeiro de 2008

O vizinho histórico

“Um Sinatra com resfriado pode, em pouco tempo, emitir vibrações pela indústria do entretenimento e mais além, tão certo como o Presidente dos Estados Unidos, ficando doente, pode sacudir a economia nacional. (...) Mas agora, neste bar de Beverly Hills, Sinatra estava resfriado. Continuou bebendo com calma e parecia estar a milhas daqui, em seu mundo particular; nem reagiu quando, de repente, a máquina de som do outro lado mudou para uma música sua: In the Wee Small Hours of the Morning”.


Tenho um vizinho que não poupa ninguém, ninguém, de suas histórias. Elevadores, corredor, escadas, lavanderia, estacionamento – onde quer que ele esteja, e sempre está perambulando pelas cercanias e interiores do prédio, quem passar por perto será abordado. É só trocar um "bom dia, como vai” com o sujeito que a coisa começa. Às vezes, nem isso.

Cheguei do trabalho um dia, acendi um Lucky Strike, sentei no chão em frente à portaria e comecei a ler umas crônicas do Nelson Rodrigues, do livro O Óbvio Ululante. Só queria fumar um cigarro, longe da minha filha, antes de entrar em casa,. Foi então que apareceu o senhor W.S. (suas iniciais são essas mesmo). Numa camisa pólo cor de goiaba e calça jeans, ambas surradas, meias sociais e alpercatas, cabelo cinza e despenteado, ele, um senhor de quase oitenta anos, chegou perguntando com a voz rouca: “Ta lendo o quê aí, rapaz?”. Mostrei o livro. “Rapaz, tenho uma história do Nelson Rodrigues...” – e começou a narrativa.

A história era de um amigo, e não dele, e envolvia Rui Barbosa, não Nelson Rodrigues. Enfim...

Por coincidência, destino ou sorte, ele carregava uma pasta com cópias da antiga Fatos&Fotos, uma espécie de Caras de outra época. A cada página copiada ele esclarecia quem eram as celebridades que eu não conhecia e emendava uma história de e sobre cada uma. Sempre a primeira frase das histórias era de peso: “Ibrahim Sued era um pederasta que...” ou “Jô Soares já trabalhou pra mim, mas...” ou “Joguei no Vasco em 45...” e por aí vai. A propósito, aquele time do Vasco da Gama, de 1945, é conhecido entre os torcedores como Expresso a todo vapor. Deve ter sido uma elite, até porque tinha Ademir Menezes. Aliás, a pasta com as cópias era pra ele mostrar ao porteiro (cujo nome eu não lembro), que está sempre lendo alguma coisa. Agora está lendo o Capitães de Areia que eu emprestei; antes, leu Cães de Aluguel, do Frederick Forsyth, emprestado por outro morador. Dias atrás, dei a ele de presente O Chefão, do Mario Puzo, e Rei de Havana, do Pedro Juan Gutierrez. Vejo alguém lendo e, Freud explica, viro fã da pessoa. Mas mudei de assunto. Voltemos ao vizinho.

Entre as tais cópias, vi uma foto do W.S. dançando agarradinho com uma morena de cabelo armado, mas bonito. Eles dançavam numa casa noturna em Copacabana, freqüentada pelos ricos e famosos da época, que pertencia ao próprio W.S., veja você. Não vou falar o nome da casa porque já dei alguns detalhes do sujeito e escrevo isso à revelia. Agora, o cuidado que tenho em falar do cara é oposto ao à-vontade com que ele fala de si mesmo. Viagens, farras, trambiques, aventuras, filosofia de vida – tudo ele vai dizendo assim, sem cerimônia nem data vênia. E prestei sincera atenção às narrativas – desde o charivari Nelson Rodrigues/Rui Barbosa do início.

A última vez que o vi – ontem –, ele narrava ao porteiro, aquele, a jogada de uma viagem ao México pra comprar uma frota de sedans Volvo, desembarcá-los no porto de Santos, “maquiar” umas assinaturas e exportar parte da frota pra Argentina. Identifiquei na hora qual o assunto porque essa mesma aventura ele me contou, no primeiro dia em que conversamos. Contou essa e outras peripécias, naquele primeiro encontro, em cujos enredos ora havia ele e/ou celebridades de todo quilate fazendo coisas incríveis, ora havia jogadas de mestre e golpes de sorte (e vice-versa) nos quais ele era o protagonista.

É uma pena eu estar sempre correndo quando o vejo. Cheguei atrasado uma vez pra deixar minha filha na creche porque o encontrei no elevador. Ele discorreu sobre as diferenças entre as crianças de hoje e de antigamente, argumentou que as de hoje são mais espertas porque convivem com gente mais velha. Ia dar um exemplo disso com a relação que ele tem com os netos, mas tive de ir embora.

Eu presto atenção ao que ele fala, pode ser o que for, e gosto de ouvi-lo, por isso mesmo não questiono. Um dia, tenho fé, ele ainda vai me dizer: “Eu já apertei a mão de Frank Sinatra”.


--
Abertura:
Sinatra Has A Cold, de Gay Talese, revista Esquire (1966).
Imagem:
Frank Sinatra Before Gaming Control Board, Bettmann/CORBIS (1981).

Nenhum comentário: