14 de janeiro de 2008

Sobre cervejas

Pra variar, num sábado à tarde, o demônio bate à minha porta. O famigerado Pedro Ivo (tenho falado demais nele aqui) perambulava pela vizinhança à caça de alguma perdição, seja qual ela for, dele ou de outrem – não importa. Enfim, o diabo me apareceu em casa, de bermuda e tênis, mencionando cerveja, se não me engano... À leve menção dele ao líquido já fiquei ansioso e sedento. “É, eu tenho de comprar aquela cerveja mermo, vamo nessa”, falei, enquanto ele surrupiava um livrinho meu, intitulado, veja você, Paranóia.

Aquela cerveja é uma tal de Maudite. Numa noite, saímos eu e minha deusa durante nossa pequena estadia no Rio de Janeiro. Vagando pela night carioca encontramos um boteco-cervejaria, muito bacana, nas entranhas do Leblon. Nem lembro o nome do lugar, só sei que fica perto de uma livraria, creio que "livraria Conde alguma coisa", onde gastamos umas três riquezas rockfellerianas. A romântica noite teve estes dois aperitivos: livros e bebidas. Desde essa noite, essa Maudite não me saia da cabeça, ou do sangue.


Entramos, Pedro Ivo e eu, no estabelecimento cervejeiro. Os garçons ainda armavam o circo quando chegamos e, por isso, íamos embora, revoltados; mas o dono foi comercialmente gentil e disse pr’a gente ficar: “Faço questão de servir a vocês”. E ficamos. Corro o cardápio, ávido, atrás da maldita cerveja e nada. Nem leio os nomes das cujas, só procuro pela bandeira canadense (ela é do Canadá). Não havia. Nem ela nem qualquer outra cerveja daquelas terras. Fiquei triste, consternado, desiludido e cabisbaixo. E quando ficamos assim, qual o remédio?

“Ah, cara, vamo beber!”, rugiu o hipertenso Pedro Ivo, à essa altura tão sedento quanto eu. Aí, chamamos o fulano pra saber quais as sugestões da casa. O jovem proprietário, um goiano de sotaque carioca, nos indicou a belga Rochefort – mal ele terminou de falar, já tinha nossa aprovação lavrada em cartório. “Vocês já beberam alguma coisa hoje?”, perguntou o fulano, pro nosso desespero – a cada segundo a sede triplicava. Como ainda não tínhamos ingerido uma gota sequer de álcool, nem Biotônico Fontoura, o gentil goiano aconselhou tomar uma outra cerva antes, mais leve, pra limpar a garganta. Fomos na onda e aceitamos uma bira argentina, a Isenbeck. Uma bela bosta. Um litro de cerveja ruim. Mesmo assim, tomamos. (Pedro Ivo aventou que o proprietário goiano, muito esperto, nos empurrou a cerva argentina goela abaixo porque ela tava choca e ele queria ficar livre dela, o que faz muito sentido.) Na seqüência, deixamos a Rochefort de lado, até porque era indicação do goiano e já havia uma desconfiança sobre o que ele sugerisse, e continuamos pelo Cone Sul. Pedimos a uruguaia Patrícia. Nome, como você percebeu, muito peculiar pra uma cerveja. Imagine os trocadilhos que as Patrícias loiras do Uruguai devem ouvir. Enfim, a tal Patrícia era gostosa mesmo (viu?).

O tempo ia, a conversa rolava solta, as guimbas de Marlboro procriavam loucamente no cinzeiro. E entre azeitonas e picles, fomos à Europa. Na Bélgica, fomos acolhidos pela Duvel. E que recepção! Eu, ligeiramente embriagado, tive de corrigir a postura: essa Duvel era outro nível. “Cerveja de verdade, fala aí!”, baforou o alegre Pedro Ivo, que já andou pelos Países Baixos e lá a conheceu, no seu habitat natural. Um espetáculo de cerveja.

Saímos do Continente. Zarpamos em direção à Albion. Imagine como foi escalar os rochedos de Dover: Pedro Ivo, naturalmente estabanado e com uma certa dose de álcool no sangue, e eu, bêbado. Nos esfolamos subindo os rochedos, o que ajudou a dissipar a embriaguez, e paramos no primeiro pub: “Traz uma Old Speckled Hen pr’a gente, mate”.

À essa altura, já tínhamos resolvido o enigma da origem do universo umas três vezes, acertado o futuro campeão brasileiro umas quatro e planejado a colonização de Marte umas duas. Já era suficiente pra um dia de... lazer. Apesar da ovação da platéia imaginária (e não sei o que danado aquele povo fazia ali, aplaudindo cada merda que a gente dizia), fechamos a conta e voltamos para Brasília.

Hoje, me pergunto: será que um dia tomarei a Maudite?

Um comentário:

Alexandre Matos disse...

Cerveja argentina normalmente é lixo. Fui duas vezes ao país e só tomei cerveja boa lá em bares que vendiam importadas.

E muita gente acha que a Alemanha é o país da cerveja. Por quantidade de rótulos, pode ser. Por qualidade, o título é da Bélgica.

PS: Tem muita belga do nível ou melhor que a Maudite (que é de altíssimo nível mesmo).

PS2: O bar do Leblon ficava na Conde de Bernadote. A livraria era a Da Conde.