27 de janeiro de 2008

Templos da hombridade

Tem um fulano cheio de instrumentos perfurocortantes ao redor do seu pescoço, podendo, se quisesse, decepar uma orelha sua, no mínimo. Mas nada aziago acontece. Eles trocam piadas, xingam o time do outro, comentam as notícias que saíram quentinhas do rádio e debatem se “usaram ou não computador na Playboy da Mônica Veloso”.



Barbearia. Aqui em Brasília há uma única barbearia, que eu conheça, que lembra aquelas antigas, de poltronas estofadas em couro, de rádio sintonizado em estações de notícias, ininterruptamente, de senhores de jornal à mão, prontos e preparados para debater política e esportes (mulheres não são pauta porque são homens de respeito, não abrem a boca pra dizer gratuidades vulgares sobre damas, próprias ou alheias). A tal barbearia é a 7 de Setembro, da 303 sul. Fui lá poucas vezes, umas quatro, quando morei na 108. Por não ser promíscuo quando o assunto é onde cortar cabelo, não saio por aí oferecendo a cabeça a tesouras e navalhas a cada vez que preciso aparar a juba. Daí conhecer poucas barbearias, daí ver na 7 de Setembro a única que, aproximadamente, corresponde ao, digamos, arquétipo de barbearia.

Lá, na 7 de Setembro, contudo, havia sinais de modernidade. Havia, como disse, o rádio sintonizado na CBN; porém, também presente, a tevê, competindo com o rádio em volume e, assim, promovendo uma algaravia como “fundo sonoro” aos debates. E a tevê não era a cabo. Das vezes que fui lá, um ou outro palpitava sobre que canal escolher, sem critério algum que não fosse uma imagem interessante, fisgada durante o zapear. Depois, da mesma forma desinteressada, outro sugeria a mudança de canal e a coisa se repetia. Além da tevê, outro aditivo moderno, na concepção arquetípica e totêmica que tenho de barbearias, eram as revistas de artistas nuas. Talvez minha representação da barbearia primordial seja muito cândida, porque só consigo imaginar os fregueses de antigamente folheando Fatos & Fotos pra ver a Martha Rocha, vestida; por outro lado, sei que é bem adequado crer que, além da Martha Rocha, vestida, havia aqueles nus de outrora, àquela época tão lascivos, àquela geração, quanto Hustler, Private ou Brazil, à nossa.

Há poucos ambientes que são masculinos na medida certa e natural. Talvez só um, a barbearia. Veja, o açougue é um lugar masculino, masculino até demais: facas, facões, cutelos, serras manuais e elétricas e sangue por todo canto – chega a ser um lugar de horror, se assemelha a um pronto-socorro de acampamento de guerra. Por outro lado, vestiário masculino, às vezes, não é tão masculino assim. Sabe como é, de vez em quando aparecem uns fulanos que você não conhece, o olham de um jeito estranho, deixam o sabonete cair... Enfim, a coisa acaba em linchamento. Ou seja, neste exemplo, depois do grupo ser invadido (sem trocadilhos) por elementos alheios à hombridade, o que se vê é uma manifestação de uma redundante brutalidade irracional (sou a favor do diálogo, mas há situações e situações). Faltam suavidade e higiene ao açougue, faltam equilíbrio e bom-senso ao vestiário. Barbearias têm tudo isso.

“Completo?”, pergunta o barbeiro; “Manda bala”, responde o freguês, recostado na poltrona, tranqüilo como um bode comendo qualquer coisa, nem esquenta a cuca quando um sujeito lhe mete a navalha na cara. Já imaginou? Tem um fulano cheio de instrumentos perfurocortantes ao redor do seu pescoço, podendo, se quisesse, decepar uma orelha sua, no mínimo. Mas nada aziago acontece. Eles trocam piadas, xingam o time do outro, comentam as notícias que saíram quentinhas do rádio e debatem se “usaram ou não computador na Playboy da Mônica Veloso”. Salvo um ou outro atrito por questões futebolísticas, que são rapidamente digeridos, barbearias são saudáveis. São templos, inspiram respeito em todos – e esse respeito é quase tangível.

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