15 de fevereiro de 2008

Eça, Rodrigues, Tolstoi

Afonso ainda ia longe, como ele dizia, de ser um velho borralheiro. Naquela idade, de verão ou de inverno, ao romper do sol, estava a pé, saindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da manhã que era um grande mergulho na água fria. Sempre tivera o amor supersticioso da água; e costumava dizer que nada havia melhor para o homem – que sabor d'água, som d'água, e vista d'água. (Os Maias)

Há suspeitas de que Liev Tolstoi, este personagem de mundo real, tenha sido um adulto.
Nada comprovado até então.

Não existem adultos. Virgens, lobisomens, torcedores do Ibis, tudo é mais fácil de achar, menos adultos. Os últimos que vi foram na minha infância. Cresci e, hoje, percebo que aquelas pessoas a quem eu, prontamente, dava o título de “adulto” não eram mais que criançolas.

Quando penso em adultos, me vem à mente um ser humano, mulher ou homem, carregando um pouco de estoicismo num bolso, um pouco de epicurismo noutro; tendo uma boa relação com o tempo, que não compete com os ponteiros do relógio nem se deixa dominar por eles; um ser humano com vernizes de resignação, mas não muito – só o suficiente pra saber dosar as esperanças e, também, as proteger do mundo (“O inferno são os outros”, disse o filósofo); uma pessoa que, sendo já crescida, guarda a tal pureza das crianças em algum lugar de si e que, se ainda infante, não se deixa poluir pelas ditas “pessoas maduras” ao redor, mesmo que se proteja de forma inconsciente; me vem à mente um indivíduo que não é isento de infernos pessoais (só não os têm as múmias), mas sabe lidar e negociar com essas trevas; me vem um indivíduo humano, demasiado humano, que é capaz de bater com fúria e beijar com paixão – mas que é consciente da responsabilidade que esses excessos pedem, e, por isso, não se priva de ou se reconhecer errado e se desculpar, ou se segurar e impedir a mão, no último instante, de ferir – ou mesmo a boca, arma mais letal; e também não se priva, por outro lado, de repetir o beijo ardente como se fosse o primeiro e último, de agir com candura – mesmo para com frutos estéreis – e o fazer livre e espontaneamente.

A palavra adulto me traz tudo isso. Puro delírio. Um delírio arquetípico, conceitual; um tipo de delírio utópico e manjado. Nelson Rodrigues esclarece: “O que há de adulto, no homem, é uma pose”.

Até conheço umas pessoas aqui, no mundo real, que se aproximam deste Adulto Arquetípico. Na verdade, só conheço uma ou duas pessoas, mas não vou dizer quem são porque vai que eles não gostam de ser chamados assim, de “adulto”, deliberadamente e em plena rede mundial. Tudo bem que é uma calúnia relativa e pequena, mas vou evitar.

Entretanto, vou citar o nome de um adulto já morto (este, se ofendido, teoricamente não revidaria – a não ser que me apareça em espectro). Acredito que seja a pessoa que mais se aproximou, ou mesmo personificou, o Adulto Ideal, Primevo, Eterno, Arquetípico e qualquer outra caracterização em maiúscula que você achar pertinente.

Don Afonso da Maia, o patriarca trágico d’Os Maias, é o único adulto que jamais existiu. Houve alguns, antes dele, que poderiam ocupar um lugar de destaque ao seu lado: o Príamo, rei de Tróia, talvez o Rei Lear, da Bretanha e aquela grega lá, a Antígona. A outros poderíamos dar o título de “pessoa madura”, no entanto me fogem os nomes desses; e, por fim, há ainda mais alguns sobre quem pesam suspeitas fortes de que, talvez, tenham sido adultos. O que importa é que ninguém se compara a Afonso da Maia. Este, sim, foi o único adulto que conheço. Toda gente grande são crianças de barba ou de útero.

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