21 de fevereiro de 2008

Fúria celeste

Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

(Os Lusíadas)


Então, me diga: onde? Caso o ex-planeta de Deus se arme enfurecido, por todas as vezes em uma, e resolva, talvez já tarde, dar cabo da criatura humana, desde um imperial texano ao mais frágil torcedor do Náutico, me diga: pr’aonde a gente corre? Pro quarto da filha. Explicarei.

O céu de Brasília... Parênteses: pra começar, Brasília não é só um “parque temático”, como diz Ruy Castro, para políticos, pilantras e congêneres. Há vida além da Praça dos Três Poderes. É comum, inclusive, que o brasiliense esteja ou a par ou por fora o mesmo tanto que estaria um cidadão de outro estado. Morar ou nascer aqui não é sinônimo de conhecimento cabal em falcatruas, nem intimidade com os homens de Estado. O “parque temático” e a “população genérica” são universos diferentes. Há pontes, sim, entre um e outro – que garantem o andamento do jogo político-social – mas são pontes móveis e funcionam em horários incertos.

Além de politiqueiros, notícias de politicagem, ladroagem e, às vezes, política, outros dois produtos de exportação da capital federal são a arquitetura de Niemeyer e o famoso céu de Brasília. Teria o Joaquim Cruz, mas ele é de Taguatinga. E o Vale do Amanhecer fica em Planaltina.

E o céu de Brasília é, mesmo, tudo isso que falam por aí em catatônico estado de contemplação. Maravilhoso. O que é muito curioso: o céu ta aqui pra todo mundo ver desde sempre, é intocável, não é livre para visitações (só se você voar), é só céu. Na maior parte do tempo, uma imensidão azul, às vezes maquiadas aqui e ali por nuvens, inacessível ao pequeno humano pedestre. E mesmo que você voe (voar mesmo, tipo Superman), o que teria pra degustar? O cerrado embaixo, o infinito acima e além. Neste caso o prazer seria voar, não o céu, mas aí é outro assunto. “O céu é o que a gente vê quando olha pra cima”, terá dito alguma criança por aí – e eu concordo.

Pois bem, não quero pensar na hipótese de que “o céu de Brasília” seja tão famoso pela falta do que o brasiliense exibir, porque além da arquitetura de Niemeyer há também o... é... o... a... (Pulemos essa parte, falemos do céu.)

O céu! Belo. Imenso. Céu com jeito de céu. Em Brasília, em quase todos os pontos da cidade, é possível ver o céu batendo no solo em qualquer direção. “Isso é show de Truman, cara. A gente vive numa bolha”, já disse o Pedro Ivo. “São 360 graus de abóbada celeste”, falou um certo pernambucano. Antes que você engendre a ilação astronômica entre os 360 graus e a abóbada celeste, vou lhe perguntar: em que outra capital você tem o céu assim, pra todo lado e ostensivamente?

Um vislumbre deste firmamento nos faz perceber o quão insignificante somos. Talvez seja esse o motivo de tanto encanto.

Mas, até agora, só imaginamos um céu azulíssimo, límpido, diurno. Imagine o inverso. Imagine toda esta imensidão de céu que se oferece ao brasiliense à noite. Agora esqueça todo o azul que viu na vida e veja, no céu, só escuridão. Uma escuridão de Joseph Conrad: “from the heart of an impenetrable darkness”. Inclua nuvens carregadas. Nuvens severas. Nuvens de Edgar Allan Poe: “clouds hung oppressively low in the heavens”. Faça chover. Chover como na Bíblia, ou como em Macondo. Águas bravas, torrenciais, caindo em ataque, agredindo a tudo. Por fim, Zeus, lance implacáveis raios sobre nós e ensurdeça a todos com trovões aterradores!

Ontem, choveu. Choveu desse mesmo jeitinho que você imaginou, exatamente igual. Fúria celeste...

Voltemos ao início. “Onde terá segura a curta vida / Que não se arme e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno?” Pois é, pra onde a gente corre?

‘Stava eu na varanda, ontem, boquiaberto com o terror da noite, fumando Lucky Stike. Daí cortou a escuridão um raio luciferino, rasgou todo o negrume noturno, me deixou paralisado, cego, o cigarro caiu varanda abaixo; num crescendo fulminante, o trovão inexorável estremeceu a tudo, ensurdeceu plantas, fez tremer o vazio.

Saí correndo e me joguei no berço da minha filha.

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Imagem: Lightning Bolts in Gray Clouds © Jim Reed/CORBIS 2003

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