17 de março de 2008

Marlboro, Camel e Cia.

De nove andares diferentes, descem adictos de diversas espécies, mas do mesmo vício. Lá embaixo, nos reunimos duas, três vezes ao dia.

É notório que o tabaco é socializante. Ao menos pros fumantes. Mesmo assim, tive um colega não fumante que andava com um isqueiro caso alguma tabagista desprevenida, e atraente, precisasse de fogo. Este e o outro fogo, aquele, o das intenções do meu colega. Antes, fumar era a ignescência das pegações – é só lembrar como Marlene Dietrich e Humphrey “Bogie” Bogart incendiavam corações e afins. Longe da época em que a fumaça de um palito de ervas era charmosa, hoje é agregadora de excluídos.

Veja, onde trabalho não há fumódromo. Alguns corajosos, ou insensatos, fumam no próprio escritório, desconfortando os ora passivos, ora irritadiços não fumantes, ou nos corredores, ou trancados no banheiro, ou perto de uma janela, baforando a apreensão do flagra iminente. Convenhamos, não há muito prazer em fumar assim. Nenhum prazer, na verdade. Além do mais, agir assim é meio que assumir ser cigano de holocausto. Morre-se duas, três, sei lá quantas vezes quem acende um cigarro com o fósforo da vergonha. Os fumantes têm noção de que aquela chupeta não é lá muito lúdica – por isso é que ninguém ganha nada em tragar mais tensão do que fumaça. Até porque esta tem a função de elidir aquela.

Por isso, os fumantes sensatos – releve o contra-senso – vão poluir os pulmões longe, bem longe. Okay, não é tão longe. É no lado de fora do prédio. De nove andares diferentes, descem adictos de diversas espécies, mas do mesmo vício. Lá embaixo, nos reunimos duas, três vezes ao dia.

Os assuntos começam por iniciativa do cigarro, quem o suga é coadjuvante. Os assuntos são Carlton, Marlboro, Camel, Free, etc, nada mais. Os assuntos paralelos são parar de fumar, dar um tempo, diminuir a dose, por aí vai. Os contatos iniciais o fumar estabelece: um pede isqueiro a outro, alguém oferece cigarro a quem esqueceu e outras aproximações do gênero. Mas isso não quer dizer que as conversas parem por aí. Em alguns casos o vício cede ao convívio, nascendo no fumódromo amizades, coleguismos, solidariedades corporativistas. Pelo menos isso. Tem gente que fez amizades mais harmoniosas lá no fumódromo do que no lugar onde trabalha.

Nem tudo são fumos, contudo. Ultimamente, estar numa roda tabagista e só ouvir o quanto querem parar de fumar é meio sacal, sabe... Acho que é só comigo, não sei. Deve ser essa a razão de, enquanto converso com outro fumante, fazer as perguntas mais nada a ver. Perguntas bem alheias ao hábito nicotínico. “Qual o seu signo?”, “Curte Pantera?”, “Conhece Recife?”, “Já leu Reparação?” – bem assim, do nada, jogando a interrogação na cara da pessoa.

Hoje mesmo, pela manhã, um colega de corporação mal respondeu ao meu ‘bom dia’ – já foi falando que conseguiu reduzir o quanto fuma: agora um maço dura dois dias. Complementei dizendo que toda segunda-feira penso em parar de fumar (e realmente penso), mas aí acendo um cigarro pra pensar melhor na questão. Ainda bem, consumimos nossos Marlboros falando de música.

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Imagem
Recorte de "Humphrey Bogart Smoking Cigarette", © John Springer Collection/CORBIS, 1940.