6 de março de 2008

Nazi Jackson

A Livraria P., na W3 sul, é onde busco suprimentos. A Morte de Artemio Cruz e Pedro Paramo foram as últimas aquisições. É um sebo; além de livros, vende vinis, CD’s, revistas antigas. Obras novas também marcam presença nas estantes: jornalistas vão lá dispensar os livros não lidos e resenhados e um ou outro sujeito chega com um punhado de volumes zerados, de origem incerta e não-sabida. A propósito, quando adolescente, trabalhei lá por uns anos.

Bebericando uma Indaiá, folheio uma antiga edição da Civilização Brasileira – um livro de contos, cada conto um pecado capital, cada pecado um ilustre (só lembro de três: Guimarães Rosa na soberba, Carlos Heitor Cony na luxúria, Ligia Fagundes Telles... esqueci). Entre uma e outra página, aprecio a fauna e lembro de uns tipos incomuns.

Travesti. Havia um travesti que lá ia com freqüência. Um dos fregueses mais educados, por sinal. Apesar da barba por fazer e do figurino masculino, seu verdadeiro eu chegava primeiro: longas unhas esmaltadas, reluzentes pulseiras arabescas, originalíssimos penduricalhos nos lóbulos, esvoaçante juba de Maria Bethânia. Ela sempre ia atrás do Moreno. Não um moreno qualquer, mas o Moreno, aquele do psicodrama. Raramente algo dele aparecia por lá, não sei por quê. Pra compensar, ela levava pra casa Judith Krantz, Danielle Steel, Nora Roberts, essas coisas.

Polícia Militar. Era jovem, creio que da minha idade, PM e estudante de física da UnB. Da última vez que o vi, lembro que então ele’stava em dúvida se permanecia na física ou mudava pra matemática. Era PM, mas contradizia tudo o que o costumeiro preconceito atribui à corporação: era educado, estudioso e manso. Acredito que haja outros como ele por aí, mas não com aquela bibliomania filosófica. Dele eu só ouvia Hume, Locke, Bacon, Hobbes, Kant, talvez Hegel; mais Hume, Locke, Hobbes; Hume de novo... Garanto que é uma imagem interessante: um PM fardado consultando a Crítica da Razão Pura, editada pela Calouste Gulbenkian, questionando a qualidade da tradução.

“Seu Moço”. Esse velhinho chamava todo mundo de “Seu Moço”. Entrou lá sem querer, queria tirar xérox. Não perdeu viagem, puxou assunto, trocou idéia. Pronto. Ganhou fãs. Uma figura! Se tava passando, entrava, conversava pra mais de metro, todo mundo gargalhava, ia embora. Algumas vezes a visita foi diferente: narrou situações domésticas, chorou (a gente quase chora junto), disse “É a vida”, enxugou-se, foi embora. Voltou depois pra mais risadas, mas com menos freqüência. Até não aparecer mais. Nunca mais soubemos dele.

Fico até com vontade de parar por aqui, por ter lembrado do “Seu Moço”. Talvez seja o único sujeito contumaz na livraria a quem é impossível atribuir traços exóticos, e ainda assim ser peculiar. Sápido, digamos.

Enfim, houve outros tipos, a lista é longa. O poliglota enfezado, o colecionador de cartas, o procurador da República, o expert em Verlaine, o “amigo íntimo de JK”, a patricinha entorpecida, o advogado de anão do orçamento (“Ninguém escreve haikais melhor que eu”, ele fala), o enciclopedista do Itamaraty, etc, etc. Falei, a lista é gigante. Nela, consta o nazista, ou neonazista. Afronazista, pra ser preciso.



Ele sempre ia na seção “Segunda Guerra”, sempre. Entrava, oferecia um educado bom dia a todos, andava lentamente até àquela seção e lá ficava, às vezes mais de hora, paquerando livros. Mas ia embora sem levar nada. Deve ter praticado algum esporte, era magro e de boa postura. Não saberia chutar a idade dele. Um dia, não resisti, perguntei o que tanto ele via naquela estante (não desse jeito, claro). Foram dez minutos de enrolação, até ele cavar umas entrelinhas e semear ali resposta obscura: era nazista. Continuamos a conversa. Ouvi ele dizer que Hitler quis apertar a mão do Jesse Owens, que Hitler ficou encantado com Jesse Owens; me mostrou uma agenda com os nazi-contatos, disse que era admirado pelos seus correligionários, elogiou Eichmann (essa foi foda de ouvir), fez hábeis comentários que acobertavam uma facada nos ciganos, voltou a falar das Olimpíadas de Berlim, e lá vai o trem. Até que enjoei, pedi licença, fui organizar os livros esotéricos. Desse ao último dia em que trabalhei lá, o ritual dele era o mesmo – e só ficamos nas vênias, sem diálogos, ainda bem.

Ele era a cara do Samuel L. Jackson.

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