31 de março de 2008

O Prefácio

Então, me vem à mente o seguinte trecho: “Da exegese e seus mecanismos de ajuizamento, é recomendável, a todos que se debrucem ante este tópico [os escritos angélico-demonológicos], anuir, a priori, que a cada revelação interpretativa e a cada comentário avaliador o exegeta terá de repetir a mesmíssima operação analítica sobre a interpretação e a avaliação que acabara de executar. Repetindo a operação, o exegeta verá que é mister refazê-la, visto que a cada exegese da exegese, um novo significado emergirá, por vezes totalmente diverso do que, supostamente, seria esperado. O que acarretará numa nova exegese, e assim o processo interpretativo e analítico seguirá ad infinitum. Incluir capa e páginas que antecedam ao prefácio é facultativo; já este prefácio deve ser incluído, inapelavelmente, no processo exegético.”

Este é o último parágrafo do prefácio ao Tratado Angélico-Demonológico de Análise e Interpretação das Sagradas Escrituras, uma obra magnífica, elaborada a oito ou dez (ou doze) mãos: Gabriel, Miguel, Rafael, pelo lado Dele, e Lúcifer, por sua própria conta. O outro par de mãos é, talvez, de Mefistófeles, que cuidou apenas do índice remissivo e da encadernação. Há rumores de que o tal índice remissivo tenha sido confeccionado por Belial, que tivera seu nome excluído dos créditos finais por Mefistófeles, por motivo desconhecido. Este rumor acentua-se, especulativamente, por ter sido Mefistófeles o responsável por levar os manuscritos ao prelo e coordenar todo o processo de revisão, diagramação e encadernação. Minhas habilidades em Ars Goetia são ínfimas, por isso não pude invocar a ambos para dirimir a querela. Sejam considerados os créditos oficiais, nos quais o nome de Belial não está presente.

As monografias de Santiago Santiago (1148, ou 1286, ou 1491, ou 1602), Cardeal Manolo (1148, ou 1286, ou 1491, ou 1602), Cunha de Medeiros (1148, ou 1286, ou 1491, ou 1602) e Van der Eckel (1148, ou 1286, ou 1491, ou 1602), os únicos trabalhos sobre o Tratado que a historiografia reconhece, não esclarecem quem redigiu exatamente o quê em naquela obra, por duas razões.

A primeira é que, por serem análises básicas sobre um texto que versa sobre a técnica exegética, Santiago Santiago, Cardeal Manolo, Cunha de Medeiros e Van der Eckel incorreram na infeliz coincidência de nomearem suas monografias sob o mesmo título: Ars est celare artem. Ou seja, os únicos trabalhos a quem o jovem exegeta poderá recorrer para elidir as inumeráveis dúvidas que o Tratado lhe suscitará não lhe serão de grande valia: ele lerá o Ars est celare artem de Santiago Santiago, podendo este trabalho ser, na verdade, o de Van der Eckel. Da mesma forma, as outras combinações são possíveis e ele lerá Cardeal Manolo por Santiago Santiago, Cunha de Medeiros por Cardeal Manolo, Van der Eckel por Cunha de Medeiros e, involuntariamente, poderá ler uma das monografias pelo autor original – sem que o saiba.

A segunda razão, talvez mais perniciosa do que serem as monografias homônimas, é o fato de estes quatro textos estarem num mesmo volume, cuja encadernação data de 1900. (O papel utilizado denuncia a probabilidade das monografias terem sido, de fato, agrupadas por volta de tal data.) Obviamente, o responsável por tal compilação não era familiarizado com os rigores da biblioteconomia: na capa, os nomes dos autores (não em ordem alfabética); no rodapé da folha de rosto, as datas 1491, 1148, 1602, 1286 (nesta seqüência); no índice, o título (também presente na capa) Ars est celare artem, sem data.

Embora sejam escritos reconhecidos, os equívocos de datas e de autorias impedem que o jovem exegeta se utilize deles pragmaticamente. Por tal, ele terá de voltar ao Tratado sem a esperança de dispor de obras auxiliares confiáveis.

Voltando ao tratado. Dada a quantidade de autores, talvez quatro ou cinco ou seis, o jovem exegeta deverá encará-lo, por tudo que foi exposto até aqui, com extremado cuidado, insuspeitado detalhismo e moderado ceticismo. Porque o processo de análise, interpretação e ajuizamento das Sagradas Escrituras deve ser repetido ad infinitum, de acordo com a recomendação do Tratado, sobre a própria exegese, sobre a exegese da exegese, sobre a exegese da exegese da exegese... Esta mecânica deverá ser aplicada à leitura do próprio prefácio.

Diante de tal quadro, saber por que autores tão díspares congregaram-se para escrever a obra é busca secundária. O título do primeiro capítulo, "Por que escrevemos este Tratado", deverá esclarecer as motivações que os levaram à sua elaboração. Entretanto, até chegar ao primeiro e demais capítulos, o exegeta terá de passar uma literal infinidade de leituras do prefácio.

Desconheço qualquer exegeta que tenha ultrapassado o último parágrafo do prefácio.

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Este post é uma singelíssima homenagem gratuita a Jorge Luís Borges.

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