13 de março de 2008

Seja um macaco você também!

Bonobo, chimpanzé, gorila, orangotango – vejo alguém, pode ser quem for, e logo dou um rótulo de acordo com esses quatro primataços. “Tem cara de gorila, mas é bonobo”, “Um chimpanzé completo”, por aí vai.


“Cas’Alberto, preciso lhe contar uma história” – falei num entusiasmo adolescente. Isso foi ontem, ou anteontem. Sei que foi depois do almoço. Comi às pressas pra aproveitar a hora restante na leitura de Eu, primata, de Frans de Waal.

Pedro Ivo, um primata de grande porte, me emprestou o livro. Ele recomendou, aceitei e tinha cogitado o ler quando desse. Inventei, sei lá por quê, de o folhear depois da janta. Já era. Consumi metade das páginas numa sentada. Tinha McEwan e Joel Silveira na lista de espera, os macacos furaram fila. O que foi bacana, primatologia é um assunto muito “humano” e do qual não tinha conhecimento algum – senão a suave, diria remota, consciência de ser um primata.

Lembro, comecei a engolir o livro anteontem, ontem conversei com o Cas’Alberto, chegarei nele já, já. E ontem, enquanto alimentava minha prole, à maneira quase macaca, o gorila Pedro Ivo me liga, pedindo sugestões de lugares para acasalamento numa cidade onde morei, de nome lupino (Guará). “Seilá, Pedro Ivo. Sobe numa árvore, oferece uma banana. Do Guará eu só conhecia o caminho da minha caverna”. Daí emendei a conversa com o livro dele que penso em roubar. Ele: “Ah, cara, pirei quando li aquilo – eu só via macaco, todo mundo era macaco”. Essa síndrome também me pegou. Bonobo, chimpanzé, gorila, orangotango – vejo alguém, pode ser quem for, e logo dou um rótulo de acordo com esses quatro primataços. “Tem cara de gorila, mas é bonobo”, “Um chimpanzé completo”, por aí vai.

No livro, gorilas e orangotangos são apenas mencionados. Bonobos e chimpanzés são o assunto principal. Eles são bem diferentes um do outro, mas ambos são semelhantes a nós. Bonobos, pacíficos, matrifocais, voluptuosos; chimpanzés, beligerantes, machistas, hierárquicos. Essas são as predominâncias neles. Considerando as duas espécies, caracterizar o infeliz passante entre um e outro é mais fácil e dinamiza o hobby. Eu não sei em qual me enquadro. Perguntei à minha esposa; ela: “Você é um orangotango”. Até agora não sei se ela falou sério, se falou a primeira coisa que veio à mente, se os dois. Talvez eu pareça um babuíno, tenho dúvidas... No fundo, somos uma mistura de todos eles com “algo a mais”. Assim, digo isso mas sei que é arriscado: é só lembrar, de acordo com o seu time político, do Bush ou do Mao.

Cas’Alberto é meu colega de trabalho, um primata educadíssimo. Passa metade do dia, aqui no órgão, perdendo a cabeça e a outra metade tentando fazer os outros não perderem o juízo: é psicoterapeuta jungeano. A gente sempre troca figurinhas bibliográficas. E eu tinha de falar do Eu, primata a ele.

“Cas’Alberto, preciso lhe contar uma história”. Ele avisou que tinha uma reunião, mas falei que “vai ser rápido” – e não foi tão rápido. Contei uma história de chimpanzés, uma entre várias tiradas do livro. Um enredo cheio de intriga, inveja, cobiça, violência, poder, sexo, até espionagem. Coisa de fazer inveja a Robert Ludlum. E fui contando a história, todo animado, citando Julio César e Otelo de Shakespeare, isso, aquilo, tudo pelo bem da narrativa macaca. Vez ou outra ele fazia um aparte científico, embasado; mas eu o atropelava como um primata e seguia narrando. Depois de toda macaquice literária, achei pouco, percebi Cas’Alberto conferindo a hora (a reunião...) e derramei a calda do banana split citando Jung, o ídolo do meu ouvinte. Enquadrei cada macaco num arquétipo e nem senti Jung se revirando na tumba em Küsnacht.

Cas’Alberto, o educado primata, me olhou meio reticente, com a expressão de quem ouve algo insólito, e falou: “Pois é! A reunião vai começar agora”. Creio ter sentido uma aura de alívio nele, quando foi embora.

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