24 de março de 2008

Um venerável gato

Este pesado e enorme angorá, branco com malhas louras, era agora o fiel companheiro de Affonso. Tinha nascido em Santa Olávia, e recebera então o nome de Bonifácio: depois, ao chegar à idade do amor e da caça fora-lhe dado o apelido mais cavalheiresco de D. Bonifácio de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no remanso das dignidades eclesiásticas, e era o Reverendo Bonifácio... (Os Maias)

Volto a falar de Eça de Queiroz. Ou melhor, da família Maia. Especificamente, sobre o gordo angorá, o Bonifácio.

Tenho o maior respeito pelo Carlos Eduardo, pelo Ega, pela Maria Eduarda; Craft, Cruges, Vilaça (gente boníssima!), todo mundo seria digno de provar meu pão com ovo. Até beberia uma cerveja com os Cohens e os Gouvarinhos e, por que não?, aceitaria uma taça de vinho do Salcede, desde que ele só oferecesse uma. Agora, além do meu ídolo Afonso da Maia, quem manda n’os episódios da vida romântica é o gato Bonifácio, aquele “majestosamente sentado sobre a alvura nevada da toalha, à sombra de algum grande ramo.”

Eu não sei a quantas anda a felinologia e também não sei o que os estudiosos queirozianos dizem sobre a relação de Afonso com Bonifácio. Ouso dizer que Bonifácio, sem ter a catequizada fraqueza de Pedro da Maia, sem ter o ônus servil de Vilaça, Teixeira e Gertrudes, não sendo humano como Ega e Craft – mas, como eles, tendo personalidade, sem carregar o sangue trágico dos Maias (era um gato...), e, desde que se tornara o Reverendo Bonifácio, sem gozar do furor juvenil de Carlos da Maia, Bonifácio era a personificação etológica de Afonso da Maia. Mais simples: era um bicho que parecia com o dono.

Aliás, só não parecia num quesito: o bichano foi feliz a maior parte da vida. Veja algumas cenas do seu cotidiano:

“Numa facha oblíqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo Bonifácio, enorme e fofo, dormia de leve a sua sesta.”

“Aí [no escritório de Afonso] ardia um lume alegre, a que o reverendo Bonifácio se deixava torrar, enrolado sobre a pele de urso.”

“...as peles de urso onde o Reverendo Bonifácio, espapado, torrava ao calor, ronronava de gozo.”

“Era ali, no aroma das rosas, que o venerável gato gostava de lamber, com o seu vagar estúpido, as sopas de leite servidas num covilhete de Strasburgo, depois agachava-se, traçava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e, de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo ele uma bola entufada de pelo branco malhado de ouro, gozava de leve uma sesta macia.”

Agora veja o Bonifácio, quando da morte do seu amo:

“O pobre Bonifácio fugiu, obeso e lento, com a cauda fofa a roçar o chão: mas voltou logo e esgatanhando a porta, roçando-se pelas pernas do Ega, recomeçou a miar, num lamento agudo, saudoso como o duma dor humana, chorando o dono perdido que o acariciava no colo e que não tornara a aparecer.”

Por fim, sua morte, que não podia ser mais prosaica:

“Carlos, que se sentara no parapeito baixo do terraço, entre os vasos sem flor, contou [ao Ega] o fim do Reverendo Bonifácio. Morrera em Santa Olávia, resignado, e tão obeso que se não movia. E o Vilaça, com uma idéia poética, a única da sua vida de procurador, mandara-lhe fazer um mausoléu, uma simples pedra de mármore branco, sob uma roseira, debaixo das janelas do quarto do avô.”

Brindemos ao Bonifácio!

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