8 de maio de 2008

Mundo Estranho

Ao acordar certa manhã depois de um ano de sonhos leves, Guilherme Montana se viu metamorfoseado em seu sofá num monstruoso telespectador.

Faria um ano que a nossa tevê só servia pra retransmitir as imagens do aparelho de DVD. Bebê Mais, Baby Einstein, Cocoricó, seriados e filmes eram o menu televisivo. Sábado, 3 de maio de 2008, uma inexplicável vontade de “ver o mundo” tomou conta deste blogueiro. Saí de casa atrás do fio branco que conectaria nossa tevê ao espantoso mundo dos canais abertos. Quarenta minutos depois, lá estavam, na minha sala e em frente ao meu sofá, os assombros da tela plana.

O jejum começou sem querer. A gente se mudou e empurrou com a barriga todo o processo de pesquisa de preços pra saber qual tevê assinar. Isso dá preguiça. Havia a possibilidade de, pelo menos, ter a tevê aberta, mas aí aquela preguiça se transformou no hábito de não ver televisão. Ficou o hábito.

Porém, toda vez que, sem querer, eu topava com uma tevê pela frente, eu via um mundo irreconhecível. Não podia conter, e ainda não consigo, a estupefação: “Hum... então é assim que a coisa ‘lá fora’ tá...”

Zapear pelos canais é mais divertido. Ligo a tevê, aí aparece o Ronnie Von falando pra uma menininha “Eu gravei essa música em... em... 1962. 1962! Faz tempo...”.

Pulo noutro canal, um de vendas, e dois apresentadores tentam me empurrar vista a dentro um aparelho de ginástica miraculoso, que faz emagrecer ou ganhar peso dependendo da sua capacidade de autosugestão, que “delineia o corpo”, que “enrijece o tônus muscular”, que “trabalha panturrilhas, coxas, abdômen, bíceps, tríceps, costas, peitoral, deltóides e trapézio” – e enquanto eles me iludiam com as maravilhas do troço uma moça escovada e sorridente se acabava no aparelho, sorrindo forçosamente. Morri de rir.

Outro pulo, caio num programa infantil. Um casalzinho apresenta desenhos, trocam piadas, propagandeiam um produto lá, dão ensinamentos morais e ecológicos, etc. Não pude segurar a comparação com miquinhos amestrados que me saiu pela boca.

Próximas paradas, canais religiosos. Devo confessar, aqueles pastores são fantásticos. Eles não gaguejam nunca! Têm o discurso fluido, impecável, vivaz, olham diretamente na pupila da camera e atinguem minha hipófise. Noutro canal, a bispa fulana daquela igreja famosa dava uma palestra. Digo, ela ministrava o culto; mas o ínfimo microfone de orelha, o Vaio sobre o púlpito e a desenvoltura dela junto a platéia quase me fazem acreditar que aquilo era uma palestra motivacional em recuros humanos e, nesse caso, divinos. Soltei um “Uau” e passei pro próximo. Quem falava agora era aquele do bigode. Haja verve! Show man. Ele é tão vigoroso que, não fosse o produto dele tão desgastado, até me convenceria numa realidade paralela.

De lá pra cá, noutros dias e noutros horários, mais espantos. Vi a provecta Garota de Ipanema num programa de humor esdrúxulo (o do Tom Cavalcante com Tiririca), um programa do SBT que imita o American Idol, uma novela com mutantes e cenas de luta, etc.

Acredito que daqui a pouco a nossa tevê vai voltar a ser apenas suporte ao aparelho de DVD.


PS: Na verdade, a TV Brasil, a Câmara e a Senado salvam a pátria.

Nenhum comentário: