4 de junho de 2008

Latência

Posts/crônicas só a partir de julho. Até lá, continue com a tal série Plástica. Caso maternidade, paternidade, pedagogia e assuntos relacionados sejam do seu interesse, visite AventuraDora. Abraço.

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PS: Pensei em escrever, como título, "Porque a vida precisa de pausas". Só que percebi que não vejo graça alguma nessa frase. Além do mais, blog não é vida e é por causa da vida, não do blog, que este, o blog, terá um período de latência. Além da falta de tesão pela frase, cujo autor desconheço e você, se quiser, pode até me chamar de ignorante por isso, enfim, além do não-tesão à frase, o que contou para sua elisão foi o fato de que eu, no mundo real, jamais diria uma porra dessas. Ela soa tão insólita quanto dizer "To be or not to be"; insólita porque qualquer um pode a dizer, e qualquer pessoa pode dizer qualquer coisa com toda autoridade mesmo, pensando que ela veio da Biblia, ou sei lá de onde. Claro, não quero ferir a suposta verdade encerrada, ou libertada, no sentido frase, significado este obscurecido pelo desgaste da repetição. Deixo o sentido lá na dele, intocável. Falo, creio eu, da etérea materialidade: a frase. Falo, também, do anódino hábito: a proferição. Junte uma coisa à outra e veja quantas merdas saem da sua boca sem que você se sinta, no fundo, o autor... não, autor não, o responsável!, enfim, sem que você se sinta ao menos o responsável pela tal frase. Parece uma coisa meio espectral isso: a gente profere uma frase cujo esgotado sentido desconhecemos, cuja responsabilidade sobre qual não parece palpável a nós e cuja razão de a ter proferido se assemelha, de forma horripilante, a um automatismo desalmado. Automatismo desalmado. Então, quando pensei em nomear este post-aviso, me veio logo aos dedos a tal frase "Porque a vida precisa de pausas". Mas... eu não sei quem é o autor e entitular este breve escrito com ela não foi nem uma escolha estratégica, por isso racional, nem uma escolha tática, por isso intuitiva. Foi, ao lembrar agora de quinze minutos atrás, uma digitação desprovida de qualquer volição. De repente, dedos que não eram meus a escreveram sob o mando de nenhum coração e de nenhuma cabeça. Se essa frase parece ter vida própria, quem soprou nesse barro? Foi criação coletiva, como o são as piadas? Ou foi algum ilustre que minha ignorância vetou? Eu não sei. Entre o ponto de "Eu não sei" e a primeira letra deste novo período se passaram 15 segundos. Durante um quarto de minuto eu chequei resultados na busca do Google e nada, à primeira vista, parecia sanar minha dúvida. Na verdade, ao primeiro indício de que poderia descobrir o autor eu desisti da procura. Agora, já penso noutra coisa: e se a tal frase escorreu assim involuntariamente por meus dedos por ela ter, ao contrário do que pensei, um sentido inapelavelmente penetrante e por isso óbvio? Isso seria o abismo traiçoeiro entre o que queremos falar e o que de fato falamos? Conferi a profundidade desse abismo de soslaio e vi mais coisas, mais, bem mais coisas. Todas elas representavam o ululante: este texto precisa de pausa.

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