18 de junho de 2008

Reeditar é preciso.

Em 1996 começou a caça ao Tristram Shandy. A edição dele pela Nova Fronteira esgotara antes mesmo de ser lançada (só podia ser isso...), daí ser dificílimo o achar pelos sebos. Fui a muitos sebos, por sinal. Vários. Em 2001 o achei na biblioteca da Universidade Católica de Brasília. Na verdade, não o achei: apenas soube que havia lá um exemplar. Exemplar este que outros malucos, e nunca conheci nenhum deles, pegavam na minha frente. Uma grande sucessão de lances azarados: sempre que ia à biblioteca, ele não estava mais lá, ou ainda não tinha chegado. Foi então que arquitetei o plano malígno de roubar o Shandy, a qualquer custo. Mas se o azar não fraquejou uma vez sequer em todas as tentativas de empréstimo, agora que o empréstimo seria definitivo e inconseqüente é que não iria mesmo, pois quando cheguei à estante de literatura estrangeira e lá o vi esperando por mim, ouvi os sonoros bipes do recém instalado dispositivo magnético anti-roubo: alguém foi pego na mesma diabrura que eu estava a três segundos de cometer. Saquei o livro da cueca e o devolvi, um pouco odorento, à estante de origem. Em 2003 um amigo e colega de sala descobrira, talvez tadiamente, o truque para burlar o sistema anti-roubo, mas por esta época eu já havia esquecido o Shandy, provavelmente por frustração, daí outros volumes foram coletados, talvez apenas pelo prazer de pilhar. Em 2005 o mesmo amigo abandonou esta prática por razões desconhecidas. Naquele mesmo ano, lembrei do Shandy por acaso, estudando já noutra faculdade. Fui à biblioteca. Além de não haver nem cheiro das palavras de Sterne, o sistema de segurança era triplamente rigoroso (era uma biblioteca jurídica). Tristram Shandy, adeus, és memória esquecida. Em meados de 2007 eu perambulava por uma livraria e/ou papelaria nada charmosa, como é de costume. Às vezes, nestes ambientes improváveis acontecem milagres. Como desta vez. Porque reluzente numa estante estava lá o livro A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, pela Companhia das Letras, contrariando, felizmente, a esquecida expectativa de o achar pela Nova Fronteira, porque a edição da Companhia é em papel pólen 80g. Reeditar é preciso.

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