25 de junho de 2008

Saudosismo

Você e Hopper*

Hopper. Edward Hopper, pintor realista norte-americano. Se você quer saber mais sobre ele, recomendo uma visita a http://www.hopper.com.br, valerá a pena. Aqui, neste escrito, um quadro dele específico é o tema, um quadro que me ocupou muito tempo e espaço demais na mente desde a primeira vez em que o vi.


Night Windows
Óleo sobre tela, 1928
MoMA

Night Windows, esse é o nome da peça. Simplicidade e sofisticação andam juntas, são irmãs siamesas. Este quadro é simples, beirando o inexpressivo, sobretudo para quem não conhece Hopper, ou mesmo para quem se interessa pouco por pintura. No entanto, ver o quadro, deixar que o quadro seja visto por você, melhor ainda, permitir-se ver o quadro sem esperar que dele venha um sentido explícito, uma mensagem, é o que faz dessa obra genial – até porque a postura de quem vê é a própria essência do quadro e não somente o que é visto. Sei que esse é um ponto muito crítico e debatido entre os estetas, a participação do espectador na construção dos significados duma obra. O que ressalto aqui é a maneira como Hopper o fez e sobre isso é que ora escrevo.

Veja a peça. Veja. Um apartamento, a única coisa iluminada à sua frente é o interior desse apartamento, o exterior do prédio não lhe interessa, não há nada especial nele; dentro, há vida, luz, cores e movimento, este último captado por nós no vento contra a cortina azul à nossa esquerda; e a vida que vemos é um recorte de um momento, um micro evento de cotidiano – que não sabemos qual é! Não saber o que exatamente aquela mulher faz é o mistério que subentende a essência do quadro, é o que indica aonde Hopper quer nos levar. E aonde será? A nós mesmos. Claro, essa é a missão da arte, ou, pelo menos, uma das suas missões. O que importa aqui é como Hopper nos levou a nós mesmos (perdão, acho que já falei isso, não repetirei).

Perceba. Hopper não transformou em imagens apenas um recorte de cotidiano noturno. Ele também não fez isso para que nós nos sentíssemos dentro desse cotidiano, observando um pedaço de dia-a-dia alheio. Ele, verdadeiramente, pintou o nosso olhar sobre um cotidiano alheio, sendo nosso olhar tão cotidiano, tão recorte de um momento singelo quanto o que olhamos no apartamento do prédio vizinho. Prédio vizinho e não um prédio. Não nos sentimos dentro do quadro só por empatia, nos sentimos dentro do quadro por estarmos dentro dele. Observe. Você vê a moça do prédio ao lado. Você (o seu olhar) está no seu apartamento, aparentemente um andar acima, vendo a vizinha, a moça da frente, um andar abaixo. Você, por exemplo, poderia estar andando da cozinha a sala, pois foi pegar um copo d’água, e olhou pela janela e viu vizinha, fazendo algo que você não sabe. Ou você poderia estar a observando mesmo, não importa – brincar de suposições sobre este quadro é estupidez, pois há uma infinidade de hipóteses a serem criadas para poder dizer o que você estava fazendo para ter visto a vizinha e o que a própria vizinha estava fazendo àquele momento.

Então, chega o ponto máximo da genialidade da tela. Vemos a vizinha e não sabemos o que ela está fazendo. Isso é tão belamente misterioso quanto o que você está fazendo no quadro. O alheamento da vida daquela mulher no prédio vizinho é menor que o alheamento nosso em relação a ela, ela está de costas, ela não nos dá a mínima. O que ela está fazendo é tão misterioso quanto o que nós estamos fazendo. E o anônimo, dentro do universo do quadro, na verdade, é você, é quem vê aquela moça: nós a observamos, ela é a vizinha do prédio ao lado, ela é observada, ou pelo menos vista; quanto a você, quanto a nós, somos anônimos, invisíveis: honestamente, não sabemos se há alguém nos vendo e querendo saber o que fazemos, pois estamos vendo a vida alheia, numa noite melancólica.

*Texto escrito a 09/06/05. Publicado aqui a 18/12/05. Republicado hoje, por saudosismo.

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