20 de junho de 2008

SPARKENBROKE

"A palavra espírito, em todos aqueles a quem interrogava, reportava-se apenas à presença individual de um morto. Associavam essa palavra às pancadas misteriosas, aos fantasmas, ao estado de transe profissional, ora a estremecer, ora com esse tom sardônico que é uma forma de medo. Estas coisas permaneciam estranhas a Piers. Os serviçais ou as pessoas que lhe falavam delas pareciam sempre considerar as presenças espirituais como visitantes passageiras, convidadas ou não, a este mundo. A barreira do túmulo, explicavam-lhe, nos separa dos espíritos, assim como o tempo – e o próprio tempo afigurava-se-lhes uma medida de comprimento que, sob a direção da pêndula da cozinha, se desenrolava hora após hora até tornar-se a eternidade, outra medida de comprimento a estender-se em linha reta, embora vagamente a considerassem sem fim. Todos os que cercavam Piers se contentavam com estas noções, e ele sentia-se tão isolado como se não houvesse encontrado ninguém na terra capaz de fazer uso, como ele, dos seus cinco sentidos. Parecia-lhe viver, de olhos abertos e ouvidos à escuta, numa comunidade de cegos e de mudos.”

Sparkenbroke (livro I, capítulo II), Charles Morgan
Tradução de Mário Quintana

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