24 de julho de 2008

Anton Valentin Bohoric

A história vai mais ou menos assim. Três meninos, um bêbado caído na rua, um vira-lata, um general e Madame S., profissional dos prazeres. Todos, uns mais cientes que outros, correndo atrás de um ovo mágico de perdiz. É um romance que li.


Menino Um tinha 11 anos (os outros dois também), era o líder da galerinha. Sensato e heróico ao mesmo tempo. Escondia a todo custo (e no final sabemos por quê) uma renitente melancolia. Menino Dois estava acima do peso. Um estorvo que acompanhava (tentava acompanhar) o grupo. Entretanto, tinha uma habilidade de importância estratégica ao trio: adivinhava e/ou inventava comida de tudo que lhes aparecia. Ele, no grupo, significava alimento garantido. Menino Três era o capeta, o diabo em pele e osso. Não sei se mais pele ou mais osso. Hora alguma no livro parentes dos meninos são mencionados.

O bêbado era bêbado, sem passado nem futuro, dormia no indefectível coreto da praça e sabe Deus como ele arrumava bebida (só ele bebia na cidade). Por vezes o narrador onisciente dá lugar aos discursos do bebum, na verdade profecias criptografas à la Nostradamus (depois do capítulo 7 é que sacamos o valor das “profecias”). O cachorro era um cachorro (que não gostava do bêbado), vivia caçando o pinguço pela praça e arruinando os planos da molecada, inclusive os dos três heróis do livro. O general era general (mandava em todo mundo), não gostava de ninguém e falava alemão, ou seja, involuntariamente um excluído, um solitário do poder, que recorria a Madame S. para carinhos e afagos. Já Madame S. era... profissional. Muito profissional.

A história acontece em 1868. Ano marcante para cidade-contexto: Trieste. Naquele ano, reinava uma confusão medonha por ali, confusão que se prolongou por muito tempo: os nativos não sabiam direito se eram italianos ou austro-húngaros, e nos anos seguintes, até a anexação à Italia, século passado, eles também não tinham muita certeza se eram eslovenos, austríacos, italianos, iuguslavos e outras alternativas das quais não lembro. Hoje, os triestinos falam esloveno, húngaro, alemão, italiano e, é claro, o dialeto local, o triestino. Sem contar com o friulano, outro dialeto, falado pela velha guarda e transmitido aos mais jovens por meio de uma didática um pouco, digamos, enérgica.

Enfim, à história.

Madame S. era profissional, já falei. Espertíssima. Morava afastada do centro, na fronteira austríaca. Os meninos gostavam de umas cabras daquela região (de todo lugar, na verdade). Numa dessas visitas às cabras (frequentemente silenciosas, ao contrário de hábitos semelhantes nos trópicos), o Menino Três viu o coche do exército imperial passando, puxado por quatro Rottalers (puros-sangues bávaros). Avisou ao Menino Um da carruagem exótica. Ambos de imediato resolveram seguir a coisa, a troco de nada (meninos...), apesar das reclamações do Menino Dois, que se banqueteava numa peculiar refeição: um mingau de amoras e cerejas (amassadas no leite de cabra).

Acompanharam o coche do alto da escarpa. E o viram parar em frente à casa de Madame S. Viram o general descer, bater à porta, esperar, ser atendido pela bela morena, puxar um cachorro do casaco e dizer, com extrema frieza, “Está na barriga deste cão, mate-o”. O general se virou, entrou no coche e foi embora.

Então houve um colóquio, um debate entre os três. O Menino Três queria seguir o coche, não sabia por quê. O Menino Dois queria voltar pra perto das cabras. Já o Menino Um ouviu tudo, refletiu e disse “Nós vamos salvar o cachorrinho”. O Menino Dois começou a chorar, dizendo que as cabras iriam embora quando voltassem. O Menino Três ficou enfurecido, esbravejou que conhecia aquele cachorrinho, que era um cão muito chato, que só atrapalhava ele quando ia roubar peixe do senhor Saleski, que isso, que aquilo. Mas o líder foi irredutível. Os três iriam salvar o cachorrinho.

Basicamente, esse é um resumo do capítulo I, que começa com um monólogo labiríntico e enigmático do bêbado.

Esses livros infanto-juvenis anteriores ao século XX são ótimos. Todos eles. O que há de peculiar nesse romance aí, do Anton Valentin Bohoric, é que os tipos, ou arquétipos, não se transformam nem durante nem ao final da história. Madame S. será cínica e cruel, e profissional, do início ao fim. O general não terá um segundo de ternura, ao mesmo tempo que nunca deixará de ser solitário. O bêbado continuará bêbado. Mesmo sendo um profeta, continuará bêbado, sem origem, sem redenção futura. Só não posso falar dos meninos, do cachorro e do ovo mágico de perdiz, aí seria estragar todo o charme do livro. Boa leitura.

Os Meninos, o Bêbado, o Cachorro, o General e Madame S.
Anton Valentin Bohoric
(Aoraki Edições, 2008, tradução de Otto Barhoff).

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