28 de julho de 2008

H.G.Wells

Se alguém, neste mundo ou em qualquer outro, já escreveu um primeiro parágrafo tão belo, tão forte, tão misterioso e tão ameaçador quanto este, me avise.

"Ninguém teria acreditado, nos últimos anos do século XIX, que este mundo era atenta e minuciosamente observado por inteligências superiores à do homem e, no entanto, igualmente mortais; que, enquanto os homens se ocupavam de seus vários interesses, eram examinados e estudados, talvez com o mesmo zelo com que alguém munido de um microscópio examina as efêmeras criaturas que fervilham e se multiplicam numa gota d’água. Com infinito comodismo, os homens iam de um lado para outro do globo, cuidando de seus pequenos afazeres, na serena segurança de seu império sobre a matéria. É possível que os infusórios sob o microscópio façam o mesmo. Ninguém cogitava que os planetas mais antigos do espaço pudessem ser fontes de perigo para a humanidade, ou, se pensava-se neles, era apenas para descartar, como impossível e improvável, a idéia de vida nesses mundos. É curioso relembrar alguns dos hábitos mentais desses tempos distantes. No máximo, os terráqueos fantasiavam que poderia haver outros homens em Marte, talvez inferiores a si próprios e dispostos a acolher uma expedição missionária. No entanto, através do golfo do espaço, mentes que em relação à nossa são como a nossa em relação às dos animais que perecem, intelectos vastos, frios e insensíveis, lançavam sobre este planeta olhos invejosos e, lenta e inexoravelmente, traçavam planos contra nós. E, no início do século XX, veio a grande desilusão."

A Guerra dos Mundos (1898), H.G. Wells
tradução de Thelma Mèdici Nóbrega, Editora Alfaguara

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