21 de julho de 2008

A úlcera como ela é...

Nelson Rodrigues me conforta. Juro. Não é quando ele mete (metia) o pau no Don Helder, não. Nem quando ele sacaneia (sacaneava) Helio Pellegrino ou, é claro, Otto Lara Resende. Muito menos quando ele faz (fez) piada com o Guimarães Rosa, no próprio velório do “Homero morto”. É quando meu amigo Nelson fala amorosamente de sua úlcera, esta, sim, sua companheira eterna. Irresistível e inexcedível úlcera. Quando ouço (leio) ele dizer que às vezes acordava durante a noite pra alimentar a onça sem ela ter manifestado um escasso esturro, eu respiro tranquilo. Taí alguém que me entende. Entendia. Poderia ter entendido.


De qualquer forma, eu me sinto bem quando leio essa relação aí. Vejo que é possível conviver com o terrível pitbull do duodeno. Até da maneira errada, como era o caso do Nelson, como parece ser o meu. Ele alimentava a ferinha com leite, coisa que médicos, palpiteiros e pais-de-santo, todos eles, concordam ser de uma estupidez alvar. Mas mesmo assim eles conviviam, ela sempre a reclamar carinhos dele, ele sempre a apaziguando com mimos lácteos e, ininterruptamente, nicotínicos. Neste segundo tipo de afago nós, eu e Nelson, estamos de acordo. “Cigarro, café e bebida, pare com isso tudo” me falou o médico depois de uma endoscopia brutal, que apontou os flagelos ulcerosos nas minhas... entranhas. Ainda assim continuei embebedando o organismo com Johnny Walker, e o energizando com Café do Sítio, e o esfumaçando com Lucky Strike. Eu e Nelson, sufocando a úlcera a baforadas.

É uma relação crudelíssima, essa entre úlcera e ulcerado. É visceral (literalmente). Um grande jogo sem regras. Ganha quem mascara a crueldade com indiferença e vice-versa, perde quem tem estômago. O pior é que é uma chaga de adultos, para adultos. Uma jogada do destino cheia de requintes, provocar no pseudo-racional adulto um mal deliberadamente irracional e interno!

Semana passada, entretanto, a relação com minha doce úlcera mudou. Ela cansou dos Johnnies e das Quilmes, dos Luckies e dos Camels, dos espressos e dos chafés. Tenho estômago, perdi a briga. Fui à lona, vomitei, mal dormi, pedi clemência e não soltei um palavrão sequer. Medo.

Isso não ficará assim, úlcera. Você morrerá! E quando estiver estatelada no asfalto, não lhe darei beijo algum. Eu vou é baforar na sua cara...

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Imagem do Nelson
Foto-Arte: © Revista Veja de 13/03/1980 (Capa)
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