2 de julho de 2008

O Mistério da Companhia das Letras

Me chame de Montana. Já faz alguns anos, não importa exatamente quantos, tendo algum dinheiro no bolso ou um certo crédito no cartão, e nada em especial de interessante no mundo real, pensei em viajar um pouco pelas páginas de um livro e ver as dores e prazeres da vida. É a maneira que tenho de afastar o spleen e calibrar as sinapses*. Foi assim que adquiri o meu primeiro livro da Companhia das Letras.

Não sei dizer qual foi o primeiro livro da Companhia que comprei. Porém, asseguro que nossa relação tem ganhado ares de casamento perfeito, longevo, de certa forma tradicional, com direito a bodas, almoços, jantares e, ora veja, amantes (CosacNaify, Planeta, Ateliê...). Mais da metade da minha biblioteca é de volumes editados pela Companhia. Sou assíduo no site dela; sempre acompanho os lançamentos e de vez em quando mando um e-mail cobrando alguma reedição. Inclusive, quando estou por aí, navegando em sebos e livrarias, e me deparo com um livro cujo autor desconheço, acabo o escolhendo quando vejo ou o barquinho, ou o aviãozinho, ou o trenzinho ou qualquer outro símbolo que a Companhia use em sua logomarca.

A logomarca. Há poucos meses, o símbolo da Companhia provocou em mim as perguntas: “Por que um navio?”, “Por que um automóvel?”, “Por que um avião?”, “Por que...”. Enquanto me debatia com indagações tão urgentes, veio outra, mais grave, intensificar minha agonia: “Por que nada?”. Pois é, alguns livros da editora vêm apenas com o Companhia das Letras, sob um risco duplo. Nada de avião, nada de motocicleta, nada de nada. Não suportei a dúvida, a ignorância, o não-saber. Iniciei a busca pela lógica subjacente à escolha dos signos. Fosse eu Cristo, mandaria o jejum e o deserto pra puta que pariu se Satan me tentasse com a resposta.

A primeira coisa que fiz foi a verificação. Botei abaixo toda minha biblioteca. Depois, a organização. Anotei qual ícone cada livro exibia na capa, depois organizei a lista por grupos, identificados por seus ícones. Por fim, identifiquei cada livro, dentro de seu respectivo grupo. (Desnecessário dizer que a quatidade de livros pertencente a cada grupo era igualmente discriminada). De maneira que, no final das contas, a coisa ficava mais ou menos assim, resumidamente:Todos esses dados catalogados à minha frente, refleti. Analisei. Meditei. Nenhuma epifania. Mandei toda aquela catalogação inútil à merda.

Falei com meus livreiros. O Senhor L., escondendo o espanto numa solenidade afetada, exclamou: “Nunca percebi isso, Montana”. Já o Senhor D., usando seu laconismo mineiro, fingiu não se importar, constatando o óbvio: “É, ês mud’m o desên mêss”. O único ser humano a compartilhar algo ínfimo comigo foi o Sernhor R. Perguntei a ele a que ordem, a que critério obedecia a escolha dos símbolos nas capas, ele me respondeu: “Não faço idéia, mas já me fiz ela [a pergunta] também. Nunca parei pra tentar descobrir.”

Resolvi, então, falar com a própria Companhia. Nossos tempos digitais, esperava eu, me garantiriam uma resposta rápida à minha angústia. Enviei o seguinte e-mail:

Ilustríssimos Senhores Editores da Egrégia Companhia das Letras,
Acredito que bem mais da metade, diria uns 90% da minha biblioteca pessoal é de livros editados por esta nobilíssima editora, a Companhia das Letras. Por ter tantos volumes elaborados por tal célebre casa editorial, notei, e não sei precisamente como este assombro me invadiu, o uso diferenciado dos "logos", dos símbolos nas maravilhosas capas da Companhia. Uma locomotiva, um automóvel, um avião, um coche, uma motocicleta, um navio, e mais. Minha pergunta é: qual o critério para estampar certo desenho em determinada capa, tais como um trenzinho em Eu, primata, uma m
otocicleta em Paraíso Perdido, ou nenhum desenho, como em Notícias do Planalto, Na Praia, Raízes do Brasil, enfim, qual o critério?
Muitíssimo obrigado. Beijos para todos!


Uma semana depois, nenhuma resposta. Já não aguentava mais. Várias noites sem dormir e diversos possíveis acidentes automobilísticos depois, tomei a decisão: falarei, de fato, com a Companhia. Puxei o telefone, disquei e pensei comigo: “Finalmente, terei a resposta”.

Uma moça de forte sotaque paulistano atendeu. Educada, porém célere. Uma paulistana! Após uma breve explanação de 15 minutos, precedida pelas devidas parabenizações à editora e àquela moça que me atendia (eu a parabenizava por ser assalariada daquela nobre empresa), a moça, cujo nome infelizmente esqueci, interrompeu minha fala, indagando: “O que o senhor deseja, senhor Montana?”. Expliquei a ela meu sofrimento, buscando um tom, um ritmo que ela, veloz moça!, entendesse. Ela me falou: “Não, não tem critério nenhum. A editora tem um critério próprio.” Silenciei. Não compreendi. Nem pude retorquir, não me dei conta de que, nos minutos em que fiquei atônito, o telefone emudecera.

Cai na bebida. Bebi muito. Dirigi embriagado, fui preso, perdi a carteira. Vendi os livros pra comprar bebida. Mas só deu pra comprar uma latinha de Pitú. Meu mundo caiu. Num desses momentos de miséria, depois de ganhar umas moedas na porta da padaria, comprei um cartão telefônico e liguei mais uma vez pra Companhia das Letras, em pleno desespero. Outra paulistana me atendeu, igualmente célere, igualmente paulistana. “Por que um avião, hein? Por que um navio? Por que muda de livro pra livro? Por que alguns não têm nada? Por quê? Por quê?!”. Ela me disse: “É porque são meios de comunicação.” Desliguei o telefone, perplexo. Daí apaguei. Fiquei lá, estirado no chão, entre a sarjeta e o churrasquinho de gato.

Na clínica de reabilitação, algum tempo depois, a consciência de tudo que me ocorrera apareceu enquanto lia O Desespero Humano, numa imoral edição de bolso. Pularei como foi todo o processo de ficar em paz comigo mesmo depois desse período tão tenebroso. O que importa é que eu iria, livre de rancores, sugerir à Companhia das Letras que publicasse esse livro do Kierkegaard, com uma tradução digna, direto do dinamarquês, já que a editora traduziu o Nooteboom direto do holandês e o Gombrowicz, do polonês.

Por isso pedi à recepcionista da clínica que me deixasse usar o computador dela. Os demais computadores eram offline. Uns colegas haviam comprado bebidas via internet, o diretor descobriu e proibiu que os internos ficassem online. Proibiu até celular. Quero ver quando ele notar a falta daquele Jack Daniels que ele escondia lá na... Deixa quieto.

Finalmente acessei meu e-mail. Você não imagina a surpresa. Lá estava, à minha espera, a resposta àquela antiga mensagem, a primeira e única que enviei à Companhia. A resposta:

Caro Montana,
Obrigado pela sua preferência, nos deixa muito felizes e orgulhosos.
A idéia de usarmos meios de transportes em nosso logotipo é de mostrar que a leitura pode nos levar aos mais diversos lugares. E sua escolha depende de algumas variáveis. Em algumas capas, há uma adequação ao conteúdo do livro; em outros, o desenho para combinar com o desenho da capa (em alguns casos para não interferir no layout da capa, usamos o logo sem desenho), e também tentamos ter o cuidado de usar veículos diferentes dentro de nossas coleções.
Atenciosamente,
Departamento de Arte.


Enfim, a verdade.


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*É, o primeiro parágrafo lhe é familiar porque é uma macaqueação do Moby Dick. Mas principal inspiração pra esse post foi isso aqui.

Um comentário:

Diana disse...

Que bom que, depois de todo esse trabalho, você conseguiu descobrir! Eu sei que você conhece o nosso blog, mas você já viu o vídeo com o Luiz Schwarcz, onde ele fala justamente sobre a criação dos logotipos? Está aqui: http://www.blogdacompanhia.com.br/tag/companhia-das-letras-responde/

E se algum dia outra dúvida dessas te afligir, pode perguntar pelo twitter (@cialetras) que eu tento responder o mais rápido possível, ok?

Abraços,
Diana Passy
Departamento de divulgação
Companhia das Letras