16 de outubro de 2008

Angel Like A Devil

“Richard Johnson viveu, sim. A gente não sabe como ele morreu, nem se morreu de fato, mas com certeza ele viveu, ele andou neste mesmo planeta”


Medindo seis metros de altura e quatro de largura, a imagem de Richard Johnson suspensa no auditório Jimmy Shines do Rocking Memorial encara a todos com a já consagrada austeridade que lhe atribuem. Jason Capehart, Nick Tosches e Thomas Jacobs, os três mais respeitados arqueólogos do rock, até hoje veem a famosa – e única – foto de Jonhson como uma memória inventada pela história. Mas logo em seguida cedem ao que Capehart chamou de “crença inexorável”.

Anteontem, na primeira noite da Richard Johnson Fest, Capehart foi o participante mais prolixo no que Tosches batizou de “debate metafísico”: a existência ou não de Richard Johnson, o guitarrista que gravou uma música, e apenas uma, em parceria com uma entidade muito popular (como você verá adiante). “Não há quase nada que indique sua existência, a não ser uma única música e uma única foto. A quantidade de boatos, invenções mal-intencionadas ou mesmo equivocos passados de geração em geração colabora com a confusão a respeito de Johnson. Mesmo assim, quando ouvimos Angel Like a Devil somos capturados pela crença inexorável de que ele realmente existiu”, disse Capehart ao fim do debate, fazendo Tosches, Jacobs e todo o auditório em uníssono concordar num solene “Amém”.

Por ocasião do suposto centenário de Johnson, críticos, músicos e fãs em geral (geralmente músicos ou críticos) organizaram a Richard Johnson Fest, até agora único evento dessa natureza dedicado a Johnson, que teve o roteiro básico de sempre em centenários e comemorações afins: debates, mesas redondas, entrevistas, lançamento de livros, exibição de filmes e, claro, festas. Curiosamente, houve uma multiplicidade de eventos durante a RJF, todos provados e comprovados pelos participantes. O intrigante nisso está em saber que o homenageado, estudado e idolatrado do evento é sempre acompanhado pelos adjetivos suposto e único. Sua suposta existência, sua suposta parceria, sua suposta e única música, sua única foto, que se supõe ser dele, e por aí vai. Mas a recém-nascida e já célebre expressão “crença inexorável” elide qualquer dúvida a respeito do ídolo.

Outra coisa curiosa nessa relação idólatra permeada por incertezas é que ela precisa se afirmar. Ao contrário do que acontece com os fãs de Elvis, que negam sua morte, ou com os de Marilyn Monroe, que entre lágrimas negam a hipótese de suicídio e acusam meio mundo de assassinato, ou mesmo com alguns cultuadores de Jesse James, que sustentam a história de que na hora H Robert Ford teria assassinado um sósia, os fãs de Jonhson não negam nada, eles afirmam: “Richard Johnson viveu, sim. A gente não sabe como ele morreu, nem se morreu de fato, mas com certeza ele viveu, ele andou neste mesmo planeta”, declara emocionado Fred Gonzalez, presidente do fã-clube oficial de Johnson (ele é músico e crítico). “Richard Jonhson existiu!” foi uma tatuagem que vi escrita nas costas de uma moça ruiva que passava pelo saguão do Rocking Memorial em direção à rua, uma das últimas a deixar o prédio depois do que foi, na minha opinião, o momento mais marcante da RJF.

Tal momento foi a reprodução da música Angel Like A Devil no lotado auditório. Imensas caixas de som, pessoas pulando ou dançando freneticamente, milhares de vozes em coro entoando as letras da canção... Não, não foi nada disso. A única música que se supõe ter sido criada e executada pelos compositores Richard Johnson e o Diabo (ele mesmo) foi ouvida de forma sacra, embora um dos compositores seja, digamos, avesso a esse tipo de coisa.

Apagaram as luzes. Iluminaram a imagem de Johnson, gigante, suspensa no palco. Um sistema de som que ainda não está no mercado foi “emprestado” por um magnata da indústria tecnológica, um fã de Johnson que não quis revelar o nome. Embora a escuridão tenha me impedido de saber como exatamente a coisa funciona, o que posso dizer é que todos nós no auditório Jimmy Shines ouvimos a música como se usássemos fones de ouvido (cheguei a vasculhar as orelhas com o dedo pra tirar a dúvida). Durante a reprodução de Angel Like A Devil, ninguém se mexeu, ninguém falou uma palavra, ninguém tirou o olho do Johnson impresso e suspenso no ar. Deixei o lápis cair no chão enquanto anotava essas impressões, abri a boca pra dizer “Desculpa” à moça cujo pé eu pisei e mesmo assim ninguém notou minha existência ali. Mesmo com estas trapalhadas, ouvi atentamente os últimos noventa segundos da música, que tem dois minutos e 45 segundos, dando atenção visual aos demais ouvintes presentes, todos em transe.

O tempo parecia ter parado. Quando acabou a música, contei no relógio mais três minutos de silêncio total. É uma péssima sensação essa de estar entre “zumbis”. É óbvio que eles estavam vivos, mas era claro que estavam num profundo sono inquebrantável. Aos poucos, um gesto aqui, outro lá, os ouvintes iam saindo do transe, ou acordando. Lentamente, deixaram o auditório um por um. A moça ruiva foi a antepenúltima a sair.

Richard Jonhson parecia muito alegre na gravação. Ouvi duas risadas dele durante a música, e três do Diabo, que estava na gaita – Jonhson, na guitarra. Muito peculiar o risinho do Diabo, que desde outubro de 1938, data da gravação, se insinua entre as estrofes. Presença marcante, como já era de se esperar.

Eu fui o penúltimo a sair do auditório. O último, imagino, foi zelador. Quando só havia eu no ambiente, ele não se incomodou e começou a limpar a pouquíssima sujeira que aqueles roqueiros atípicos haviam feito. Fiz uma graça, lhe disse: “Pessoal estranho esse...”. Ele riu. Um risinho muito peculiar.


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Colaboração: Denise Garcia

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