13 de outubro de 2008

Jake & Hellen

Imagino um diálogo e uma história diferente a cada vez que olho Summer Evening, de Edward Hopper. Esse casal jovem na varanda, ela o ouvindo, vestida com uma roupinha que evidencia o calor da noite, ele falando com a mão esquerda no peito (detalhe importante), e eles não se olham. Um fala, outro ouve, ambos olham pro chão. Ela tem o olhar distante. Uma situação aparentemente tão trivial, mas que sempre me proporciona uma nova viagem.


A primeira coisa que me prende nos quadros de Hopper é olhar de quem os vê. Ele pinta a maneira como a cena é vista. Não há um olhar neutro nos quadros dele. A impressão é a de que sempre eles são vistos com uma intenção (como acontece no mundo real). A intenção pintada assume infinitas possibilidades, literalmente. Eu já vi várias maneiras de ver este quadro, nenhuma delas, provavelmente, coincidirá com nenhuma das suas.

Explico melhor. Quando vejo Summer Evening, ou mesmo o famoso Nighthawks, não penso que a cena está ali para um espectador onisciente e imparcial, como o que há para qualquer quadro do classicismo, mas para alguém de carne e osso que testemunhou aquele momento. Já disse isso aqui, sobre o Night Windows. Em Nighthawks, sempre achei que aquela cena é vista por alguém que passa de carro. Depois de uma noite estafante, fazendo sei lá o quê, o cara voltava pra casa dirigindo e vê, de relance, o bar. Pensa em voltar, tomar um uísque, mas desiste, estava cansado mesmo – e aquela imagem perdurou alguns segundos na memória da retina, até cair em total esquecimento.

Já no Summer Evening, a impressão que tenho é de que aquela cena do casal é vista por algum passante. Alguém de bicicleta, que ia ou voltava distraído e que só percebeu a presença de humanos no caminho quando viu um movimento na periferia do olhar. Era o rapaz levando a mão ao peito. O ciclista deitou os olhos sobre a cena por mais dois ou três segundos e logo tratou de olhar pra frente, menos por receio de se acidentar do que por se sentir um intruso naquela conversa.

A conversa do casalzinho é que é o tema do quadro. Teria de escrever incontáveis posts narrando cada hipótese que me passa pela cabeça. É claro que há umas mais sugestivas que outras. A primeira delas, e única que vou contar aqui, é a seguinte.

Imagino um lugar como Nantucket, uma ilha-condado de Massachusetts com temperaturas agradáveis, onde ricos vão veranear. O casal, no entanto, é nativo da ilha, e não são ricos. O rapaz, por exemplo, trabalha com o pai: são pescadores. Às vezes, pra conseguir mais dinheiro, ele faz um ou outro bico consertando motores de pequenas embarcações (na renda do rapaz há também o Mr. Taft, falarei dele adiante). Já ela trabalha numa grocery store, mercearia, que, por ser de Nantucket, também vende peixe. Você acertou: eles se conheceram lá. O rapaz foi fazer uma entrega no lugar do pai e a viu. Logo, como de costume, se apaixonaram. Veja, o pai é quem faz as entregas, porque elas envolvem dinheiro e ele não acha que o filho leva jeito pra negociar preços. Como a última entrega de peixes foi aquém do que esperava o dono da mercearia, combinaram que haveria uma leva posterior “de graça”. Assim, sendo sua presença desnecessária, o pai confiou ao filho a missão.

O rapaz, vamos o chamar de Jake. Jake mora com o pai e a mãe. O irmão mais velho morreu no mar, durante uma tempestade, uma década atrás, aos 22 anos (nosso protagonista tinha apenas dez anos quando isso aconteceu). Morrer no mar, para os cidadãos de Nantucket, é uma fatalidade, digamos, rotineira, como sabe quem leu Moby Dick.

A ela daremos o nome de Hellen. Ela mora com os pais e duas irmãs mais novas, uma de 15 e outra de 13 (ela tem 19). Como o poder feminino na casa é maior, o pai dela, um dos dois mecânicos da ilha, não consegue ser intransigente o quanto gostaria e tem de aceitar calado o fato da filha conversar com um rapaz na varanda, à noite, usando um tomara-que-caia e uma saia minúscula, que ele, o pai, acredita ser invenção dos malditos europeus (nisto ele está correto, diga-se). A mãe não é de todo permissiva, mas para não conferir mais poder ao macho da casa, incentiva vez ou outra a independência das filhas. A mãe teve um pai autoritário e não quer que suas moças passem pelo mesmo. Além disso, a mãe nutre uma certa simpatia pelo rapaz trabalhador, embora não a assuma nem pro espelho.

Estar o casal conversando na varanda da casa dela, à noite, é possível por tudo isso. Agora, o que eles estão conversando?

Pra mim, a mais sugestiva hipótese, é a de que ele esteja pedindo desculpas – ele com a mão no peito e o aborrecimento dela me fazem crer nisso. Vamos à história.

Eles iriam sair à tarde. Nada de piquenique, nem cinema, que, além de caro, não faz o tipo de passeio deles. Jake constuma tomar conta do barco do Mr. Taft, uma rico (somente rico, nada de ricaço ou milionário) de New Bedford que costuma passar os verões na ilha. O casal já fez passeios clandestinos, e outras coisas mais aprazíveis, no barco do Mr. Taft. Mas nunca o fizeram no verão. Naquele dia, eles combinaram de passear de barco, porque dois dias antes o Mr. Taft teve de deixar a ilha às pressas sabe-se lá por quê.

Tudo combinado. Mas Jake furou e Hellen ficou em casa, literalmente a ver navios, sem notícias do namorado o dia todo. À noite, aparece Jake cabisbaixo. Ele fica muito mais pra baixo quando percebe que Hellen ainda vestia a roupa escolhida para o passeio, então teve consciência do que ela sentiu o dia todo: ela não tirara a roupa porque manteve as esperanças de que ele chegaria a tempo, mesmo que não houvesse mais tempo algum – como era o caso agora.

Então ele chegou e a chamou. Ela veio à varanda, encostou-se. Ele, sem saber exatamente o que dizer, nem como dizer o que quer que seja, começou uma longa explicação, que se alongava ainda mais a cada vez que gaguejava. Ela o ouvia sem o olhar; ele a olhava enquanto falava, mas ao menor sinal de que ela poderia virar o pescoço e encará-lo, ele se assustava, gaguejava, olhava pro chão, tentava se concentrar. Um ciclista que passava àquele momento sentiu-se intruso, e um pouco constrangido, por ter visto um momento íntimo do jovem casal.

Depois de um grande esforço, diria até um esforço ingente, Jake conseguiu se explicar. Hellen entendeu as razões do namorado. Ainda fingiu, por puro coquetismo, estar mais chateada do que na verdade estava e simulou, duas vezes, entrar em casa sem o beijar. Mas não aguentou por muito tempo: os olhos marejados de Jake prometiam a torturar naquela noite. De repente eles se abraçaram (pena o ciclista não ter visto!) e por pouco não fazem ali o que só o barco do Mr. Taft sabia.

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