22 de outubro de 2008

Sobre Lujin, primeiro fragmento


“O que mais o impressionou foi o fato de que, a partir de segunda-feira, ele seria chamado de Lujin.” É assim que começa A defesa Lujin, do Nabokov. Até agora estou dominado por impressões fortes, muito fortes, sobre esse livro. Por isso que aqui embaixo há referências ao livro e ao autor. Vladimir Nabokov era uma dívida minha já antiga. Não o havia lido por pura falta de oportunidade, diga-se, embora isso não diminua a sensação pecaminosa que tenho em dizer que V.N. foi uma ausência demorada em minha biblioteca.

Até agora tento determinar com precisão o exato momento em que Lujin vê no xadrez uma alternativa ao mundo. Mas é em vão. Parece que o xadrez na vida dele era mesmo uma inevitabilidade progressiva desenhada pelo destino. É muito singelo o momento em que a tia do menino Lujin o apresenta ao tabuleiro. Não é ali que ele é seduzido, vejo eu. Tampouco depois, quando, tendo já aprendido a posição das peças, ele as observa fascinado, à espera de algo sobrenatural. A semente está na mágica.

Certa vez a mãe dele contratou um mágico de coelho e cartola para fazer uma apresentação na casa dos Lujin. Não lembro bem que ocasião foi, se aniversário ou simples happy hour à russa. A questão é que o menino Lujin ficou fascinado com os truques; não à toa ele os aprendeu e os praticava sozinho, em frente ao espelho, e via nisso uma “promessa de delícias ainda insondáveis, da forma precisa e engenhosa como um truque era realizado”, porém “ainda assim lhe faltava algo, era incapaz de descobrir aquele segredo que o mágico sem dúvida dominava para poder arrancar um rublo do ar ou retirar o sete de paus, tacitamente escolhido pela platéia, do ouvido de um Rosen constrangido.” Na verdade, o “segredo que o atraía era feito de simplicidade, de uma simplicidade harmoniosa, passível de causar uma impressão muito mais poderosa do que a mais intrincada mágica.”

Essa simplicidade harmoniosa mais poderosa que a mágica mais intrincada é uma perfeita jogada de xadrez. No tabuleiro está tudo o que a mágica suscitou no menino Lujin. Inclusive a fragilidade: uma guerra enxadrística pode ser facilmente acabada com um tropeço de terceiros distraídos, ou um brusco gesto desatento de um dos jogadores. Tanta concentração, tanto empenho, tanto raciocínio, tanta estratégia podem ir mesa abaixo e rolar chão afora com a mesma trivialidade que impera sobre os objetos mundo material (no qual está o tabuleiro, o rei, a rainha, etc). Essa fragilidade do xadrez equivale à falsa ignorância do espectador, cujos sentidos são facilmente ludibriados pelo ilusionista. Com um gesto o espectador poderia desarmar todo o truque: “Deixe-me ver suas mangas, Senhor Mágico”.

O invisível tátil, o insondável sugestivo, o mistério inevitável são alguns temas que vão crescendo durante o romance, desde que você tente ver a coisa com olhos da obsessão de Lujin. Todos eles, pra mim, têm como semente o ilusionismo vivenciado pelo garoto em sua vida pré-xadrez.

(Continua)

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