23 de outubro de 2008

Sobre Lujin, segundo fragmento


A defesa Lujin me deixou uma impressão tão poderosa que mesmo antes de terminar a leitura já havia encomendado a versão em inglês de Michael Scammell, revisada pelo próprio autor. O choque não se deve só por ser a primeira leitura de V.N. que faço – vai além de conhecer o estilo nabokoveano. Creio, e isso já é um pouco pessoal, que esse choque tem a ver com a identificação.

Só agora eu me toquei que você só vai entender esses fragmentos se tiver lido o livro.

O livro começa com o anúncio de que ele se tornaria adulto. Pra mim, o menino Lujin, vendo o mundinho ao redor dele, inicia um processo de defesa contra as armadilhas da maturidade. A maturidade significava a perda do lar, da calma, da tranquilidade. (Parênteses: a rica família Lujin tem de deixar a Rússia às pressas por causa dos Bolcheviques e tudo o mais.)

Enquanto se construia a tal defesa, vão acontecendo, com a displicência do destino ou com a intencionalidade do acaso (nunca saberei), as jogadas que empurrariam Lujin rumo ao tabuleiro. Os truques de mágica, o joguinho de xadrez em sala de aula, a tia o ensinando a jogar, o desejo de conseguir uma harmonia simples e poderosa (simples, ao contrário do mundo ao seu redor; poderosa, que pudesse sobrepujar essa realidade). Então, veio o xadrez.

Pelo resto da vida, Lujin não amadurecerá mais. Será um adulto se comportando como se ainda estivesse no colégio, o mesmo menino taciturno e desatento, preso no seu fabuloso e irresistível mundo interior.

(Continua)

Nenhum comentário: