24 de novembro de 2008

Plágio

Ele chegava à idade do homem e morava então numa casa de vista panorâmica. Uma dobradiça da janela da sala de estar estava emperrada, uma tira da veneziana soltava-se com frequencia, a vitrola ainda funcionava, mas vivia acumulando poeira, pela falta de uso, sobre a tampa protetora de acrílico.

Montana sentava-se na cadeira de balanço e tomava café, ao entardecer, enquanto sua esposa falava alegremente com a filha do casal. Sempre que estava em casa, ele andava com várias públicações, a revista Piaui, o Le Monde Diplomatique Brasil, a Rolling Stone, todas dobradas, tendo ao meio uma garrafa de isotônico.

Ele carregava várias canetas nos bolsos. Brincava de alimentar os pombos, lhes jogando grãos de milho. Costumava enfeitar os cabelos da esposa com flores. Ele praticava viagem astral, premonições, magias afins. Ele bebia claras de ovos e comia capim, como um cachorro, quando estava doente. Constumava abrir a Bíblia Shedd que pertencera à sua mãe em qualquer página para contemplar quaisquer versos que lhe aparecessem, lendo mensagens privilegiadas de cada um deles. As páginas eram adornadas com chaves e comentários interpretativos; a capa, de couro negro, era macia e agradável de tocar.

Ele ia a todos os lugares sem ser percebido e almoçava com funcionários públicos de Brasília, apresentando-se como ghost-writer ou web-redator, um homem de letras e atualizado, que tinha tato social.

Ele nasceu Guilherme Montana a 11 de maio de 1980, e assim foi batizado em homenagem a um personagem antigo, um homem que se desgraçou. Ele tinha um e setenta e três de altura, pesava quase setenta quilos, e era muito vaidoso quanto ao seu físico. Todas as noites ele levantava peso na academia, vestido como um outsider.

Ele raramente bebia cerveja. Seu cabelo era fino e castanho e ele não se barbeava com frequência. Ele tinha uma coisa chamada blefarite que o fazia piscar mais que o normal, como se a Criação fosse mais do que poderia ver.


--
Um pequeno e vagabundo plágio da primeira página de The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, de Ron Hansen. Esse livro é maravilhoso.

Nenhum comentário: