26 de janeiro de 2009

Biografias

Ler biografias é um hábito recente (meu). Via biografias sempre ou como discursos idólatras redigidos por um fã da pessoa biografada ou como extensas diatribes de rivais, invejosos, afins. Era uma visão muito simplista da coisa, confesso. Um perfil, um resumo biográfico ou mesmo uma cronologia da vida de um autor, por exemplo, eram o máximo a que prestava atenção. Ultrapassasse três páginas, já não me interessava mais. Mas a coisa mudou um bocado.

A primeira biografia que li foi Nelson Rodrigues - o anjo pornográfico, escrita pelo Ruy Castro. Isso foi há pouco mais de dois anos. Hoje, vejo que comecei bem nessa área e me pergunto por que não havia me interessado em biografias antes. Agora, o meu critério maluco em escolher uma biografia pra ler não é com base na personalidade biografada, mas no biógrafo. Quanto mais historiador ele for, melhor. É uma maneira de combater uma rusga antiga, antiqüíssima, que tenho com livros de história: é tudo muito abstrato.

Digo, em livros de história é muito comum ter frases do tipo “assim a classe artística sentiu o perigo que...”, “era proibido à sociedade da época pensar que...”, “o clero viu ali uma oportunidade de ouro para...” – classe burguesa, sociedade, clero, esse coletivos usados deliberadamente me deixam puto. Livros como Rumo à Estação Finlândia fazem muito mais sentido em estudos históricos. A História é feita de gente, e eu quero ver gente, seres humanos em livros de História, não conceitos. Sempre que leio qualquer coisa relativa à I Guerra Mundial fico meio aborrecido porque os autores parecem não se interessar pelo ser humano, pelo indivíduo Gavrilo Princip, o assassino do Arqueduque Franz Ferdinand da Áustria, que, sozinho, foi lá e matou o arqueduque e sua esposa. Assim começou a I Guerra.

Essa minha visão individualista de ver a História tem lá seus furos, digamos, metodológicos. Quando os historiadores usam coletivos como aqueles que mencionei, muita coisa é resumida numa frase, muito tempo é comprimido e, conceitualmente, a coisa pode até ficar mais lógica dada a codificação lingüística, a valoração intelectual e outras falácias. O problema é que eu gosto de histórias, sobretudo de histórias da História, então biografias são um ótimo remédio. Sobretudo aquelas cujos biógrafos vão além das diatribes e das bajulações.

É o caso do já citado Ruy Castro, que dispensa comentários, idem Fernando Morais. No caso do Castro, as biografias que escreveu de Nelson Rodrigues e Garrincha (ainda não li a da Carmen Miranda) não se resumem aos personagens título. São, também, a História do teatro brasileiro e da era romântica do nosso futebol. Sem contar com o estilo magnífico de Ruy Castro.

Depois da minha primeira experiência com Ruy, prossegui lendo biografias sempre interessado mais no biógrafo. Daí acabei lendo vidas que nunca imaginei ler. Pior, acabei sentido até admiração por algumas a que dedicava pensamentos negativos. Exemplo: Che Guevara. Não gostava dele e quando via alguém vestido com aquela foto que o Korda tirou dele eu tentava fingir que minha pena era compaixão. Mas li a biografia dele escrita pelo Jon Lee Anderson (muito melhor que a escrita pelo Jorge Castañeda). Além de biografia, é um livro que fala de toda a América Latina sob a influência norte-americana, da ascenção do comunismo e suas divergências intrapolíticas (comunismo russo e comunismo chinês), da economia polarizada em blocos, etc, etc. Até comprei uma camisa com o Che estampado nela, veja você. (Eu a comprei com o objetivo de homenagear o homem Ernesto Guevara, não suas crenças políticas e revolucionárias.)

Desde então, entre uma literatura e outra, devoro uma biografia. Algumas me surpreenderam muito. A do Ulysses Guimarães escrita pelo Luiz Gutemberg, por exemplo. Estilo claro, corrido, uma história de verdade, cheia de intriga, mistério, suspense, etc e tal – mas pouco sexo. Mesmo assim é um ótimo livro.

De repente, me peguei lendo Maysa – Só numa multidão de amores, do Lira Neto. Achei fantástica essa biografia. Fiz uma breve pesquisa antes sobre qual biografia dela comprar e, pelo menos dessa vez, todas as críticas que li estavam certas em dizer que esta é a melhor já escrita sobre a cantora. O autor, Lira Neto, já é um dos meus prediletos. Ele pode escrever a biografia de quem for – eu a lerei. Dele também é Inimigo do Rei, a bio do José de Alencar. Um espetáculo de livro. Já tô ansioso pra ler a próxima dele, do Padre Cícero. Além do mais, a Maysa era fascinante. Até então só a ouvira cantando Ne Me Quitte Pas, hoje reconheço a importância dela na nossa música e tenho uns CD`s dela e a acho uma ótima cantora, a compra não foi baseada em simpatia apenas. Infelizmente, a série de tevê não me atraiu. Não foi feita pros telespectadores da minha geração (tenho 28), mas pra quem a viu, quem foi contemporâneo dela, daí o jeitão novelesco e adramalhado à mexicana de fazer a coisa, acredito eu.


Minhas mais recentes apaixonites biográficas são Johann Sebastian Bach (3 vols) de Philipp Spitta e The Life of Samuel Johnson de James Boswell. São duas jóias culturais.


(Continua)

Nenhum comentário: