12 de fevereiro de 2009

Depoimento

Fumar é vício. Por isso, é perda de liberdade. Cigarro faz mal. Ainda que seja uma agressão extremamente prazerosa ao organismo, faz mal. Cigarro é caro. Não sei quando custa hoje um maço de Marlboro, mas deve estar caro, seilá. Ou seja, não me considere um total alienado. Mas lhe asseguro que Lucky Strike é bom caraleo!


Há oito meses não fumo. Nunca imaginei que depois de ser um adicto apaixonado eu deixaria o cigarro. Não que eu me achasse incapaz de largar o vício, claro que não. A questão era que eu gostava demais pra querer deixar de fumar. Gosto até hoje, por sinal. Onde tem uma roda de fumantes, vou pra perto sentir o cheirinho. Pena a maioria dos fumantes que conheço não fume os cigarros de verdade: Camel, Marlboro, Lucky Strike.

Porém, tem acontecido um fenômeno estranho e imprevisto. Perto de fumantes, por mais que eu queira estar ali sentindo o cheiro encantado da fumaça, involuntariamente tusso e respiro com dificuldade. Não era uma reação que esperava de mim. Logo eu, que fumava uma carteira de filtro laranja por dia. Logo eu, que mal acordava e já ia acender um cigarrinho. Logo eu, que mal conseguia comer sem a garantia de que a sobremesa seria um Camel.

O que me incomoda nessa aversão física ao cigarro é que, quando fumante, sempre vi isso como frescura dos outros. Na verdade, até hoje vejo assim. A diferença é que o que tem acontecido comigo é involuntário e puramente físico. Mesmo assim, tento aproveitar minha condição de fumante passivo para saborear um pouco da brasa alheia, mesmo que seja a do Free Light do meu cunhado. Mas não tenho conseguido apreciar o tanto quanto gostaria, meu corpo rejeita. Às vezes, no carro, minha esposa acende um cigarro e, de repente, me pego abrindo as janelas pra evitar o cheiro. É uma reação incontrolável.

Às vezes, bem às vezes, me dá uma leve vontade de fumar. Isso é raro e, como disse, bem leve. Nada que cause preocupação. Na verdade, deve ser saudade, porque quando como muito, digamos, quando como uma lasanha inteira ou muito feijão com arroz e sinto cheiro de cigarro, me dá vontade. Aliás, só quando há essa combinação de fatores é que me dá vontade: barriga extremamente cheia mais cheiro de cigarro por perto. Só que da saudade ao flashback é outra história. Nem consigo me imaginar acendendo um cigarro. É certeza monstruosa e impenetrável – o que me deixa muito, mas muito espantado. Fumar é gostoso, é charmoso, é um hábito que estimula o filosofar dos solitários e que mata qualquer sentimento de solidão. Cigarro é um grande companheiro. Mas não me imagino fumando novamente.

Ainda assim, continuo torcendo pros fumantes. Meu sogro é um Highlander. Deve tá fumando nesse exato minuto, curtindo o prazer de injetar nicotina no sangue, o que tem feito já há mais de trinta anos. E continua inteiro. Impressionante!

Não me considere um total alienado (ênfase em total). Fumar é vício. Por isso, é perda de liberdade. Cigarro faz mal. Ainda que seja uma agressão extremamente prazerosa ao organismo, faz mal. Cigarro é caro. Não sei quando custa hoje um maço de Marlboro hoje, mas deve estar caro, seilá. Ou seja, não me considere um total alienado. Mas lhe asseguro que Lucky Strike é bom caraleo!

Enfim, já me considero ex-fumante. Embora, no fundo, eu acredite naquele papo de que uma vez fumante, sempre fumante. Se eu não fumar mais pro resto da vida, em última análise isso não quer dizer que de fato me tornei um ex-fumante, mas um fumante que deu um tempo, um longo tempo. O mesmo que acontece com gordos que emagrecem drasticamente. Eles sempre serão gordos, é com esse pensamento que eles tem de conviver pra evitar ganhar Mas pra deixar a coisa toda mais concisa, fica o apelido de ex-fumante mermo e pronto.

Não só ex-fumante. Também aceito a alcunha de super-homem. Deixar o cigarro não foi uma atitude isolada, abracei o pacote Super-Saúde Plus Gold inteiro. Adotei uma alimentação saudável – talvez até demais, porque meus instrutores me recomendam comer mais “gordura boa” –, diminui ostensivamente a ingestão de carne vermelha (agora só uma ou duas vezes ao mês), cortei a lactose, voltei a malhar pesado, pedalar e nadar; e não uso mais MSN, nem Orkut, nem leio livros traduzidos por Pietro Nassetti nem nada publicado pela Martin Claret; e não vejo mais os jogos da seleção brasileira de futebol.

Paulo Cintura estava certo... Saúde é o que interessa.

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