23 de março de 2009

Carta


Ler compulsivamente tem um pequeno problema: como é vício, às vezes a gente não sabe exatamente por que lê coisa tal. Sem querer, no meio do furacão tipográfico, a gente se pega com alguma coisa estranha na mão, algo tipo romance de Norman Mailer ou de Chico Buarque, e se pergunta que porra é essa. Bem, acontece. A coisa vai, vai, vai, a gente perde o controle e acaba gastando tempo, por vezes dinheiro, com leituras que não farão diferença no balanço bibliográfico geral. É o vício.

O engraçado é que, mesmo sob estas circunstâncias, a gente não deixa de ganhar, digamos, “conhecimento” (ou mesmo literatice). Mas o lucro é maior, bem maior quando o que a gente tem em mãos é algo que realmente vale a pena, algo que “putaquilpariu, como não li isso antes?”.

Desde quarta, ou quinta, não lembro, não consigo tirar da cabeça Carta ao Pai, de Kafka. Arrumando a casa, descubro o livro, perdido entre as estantes, escondendo uma solitude quase kafkiana, acuado como um inseto. É um livro leve e singelo só na capa, só como objeto. Depois que li, ou melhor, enquanto o lia era um abalo sísmico por página.

Descobri a literatura dele tardiamente. Muitos amigos e colegas o leram, diziam “é muito doido, cara”. Por puro preconceito, dediquei mais tempo a outras leituras, a Onettis, Arguedas, Brochs, Perecs, Rawets. O correto, o digno seria pagar pra ver e ler Kafka, nem que fosse via Martin Claret. Mas não. “É muito doido, cara” não é bem uma indicação confiável de livro. E indicações de célebres eu também não vejo como confiáveis. Exemplo: Manuel Bandeira, Alfredo Bosi, Jorge Amado e Antonio Candido elogiando José Geraldo Vieira não fez sentido algum pra mim. “A Ladeira da Memória” é interessante, apenas. Por isso não me adiantava de nada ler Garcia Marquez ou Otto Maria Carpeaux elogiando o fulano de Praga.

Até que tudo mudou. Mudou por causa de Gregor Samsa. Quando ele acordou, depois de uma noite de sonhos intranquilos, metamorfoseado num inseto monstruoso. Ter lido A Metamorfose mudou tudo. Isso foi há um pouco mais de um ano. De lá pra cá, passei por um Processo e por um Castelo. Só recentemente, já disse, cheguei ao pai, à Carta ao Pai.

Até agora ainda não me recuperei da leitura. Como é possível alguém ter sido Franz Kafka?

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