13 de abril de 2009

Diálogo


Villiers

Engraçado. Amanhã vou apresentar [um trabalho sobre] Hannah Arendt, aí tô relendo uma pá de coisa, mas eu não tô achando ela mais tão ofuscantemente brilhante quanto antes.
Montana
Prossiga [risos].
Villiers
“Podemos dizer que tudo aquilo que nós sabemos, isto é, aquilo que nós podemos, voltou-se contra aquilo que somos?"
Montana
Sim, claro. (Respondi pensando ecologicamente.)
Villiers
Vou reformular então. "Posso dizer que tudo aquilo que sei, isto é, tudo aquilo que posso, voltou-se contra aquilo que sou?" - proibido pensar ecologicamente nessa resposta.
Montana
A proibição nem foi o fator determinante para minha agora incapacidade de responder. Foi a troca de pronomes. A primeira pessoa fodeu tudo.
Villiers
Se você ficar sempre fugindo de minhas interpelações serei forçado a te colocar na caixinha das pessoas tediosas, das quais eu inexoravelmente me afasto. Parece que você tem medo de falar algo errado.
Montana
Você pergunta entre aspas. Daí eu não sei se o questionador é você mesmo. Pensei num questionador abstrato. Ou seja, não tenho como responder. Na primeira versão da pergunta, no coletivo, eu estava inserido entre os questionadores. Ou seja, eu "senti" a autopergunta.
Villiers
Okay. Esclarecido que não é retórico, apesar das aspas, responda.
Montana
Cara, como é que eu vou saber?! A gente vive nessa tensão aí. Não é um privilégio seu. A realidade do "Eu posso isso" é sempre mais frágil que a ilusão do "Eu sou isso"
Villiers
Ontologia não é ilusão! Nada que possa ser volitivo pode ser ilusório. Explique-se.
Montana
Só o involuntário não é ilusório
Villiers
...?
Montana
Você disse “nada que possa ser volitivo pode ser ilusório”. Se numa equação há volição, haverá provavelmente (ou, no mínimo, possivelmente) determinantes ilusórios.
Villiers
Não necessariamente. O desejo tende a se dirigir a algo tangível. E, mesmo se não for o caso, ele sempre será concreto fenomenologicamente... e a materialidade é o terreno por excelência da volição.


O diálogo continuou. Nenhum fenômeno conclusivo se manifestou à consciência.

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Imagem: 18th Century Coffee Shop - © Bettmann/CORBIS

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