30 de abril de 2009

Leiris

Quando o objetivo é falar de si próprio sem receios, sem medos, sem medir palavras e espontaneamente, é natural que o ouvinte, ou, neste caso, o leitor fique desconfiado. As palavras a serem lidas, antes de tudo, já parecem suspeitas. Mas é preciso confirmar se são confiáveis, é preciso se dedicar a elas. Ou seja, correr o risco. O curioso é que arriscado mesmo não é ouvir, mas falar, e foi nesse risco que Michel Leiris apostou, uma aposta visceral.

© Sophie Bassouls/Sygma/Corbis - 14/14/1975

Leiris escreveu A Idade Viril aos 34 anos de idade. Uma espécie de balanço geral, uma exposição reflexiva de como se formou o Eu do autor. É um texto autobiográfico, claro; mas não é propriamente uma autobiografia, nem muito menos um “autobiografema”. É um escrito que não segue cronologias, por isso aparentemente lacônico; que recorre à memória e à auto-análise, por isso aparentemente falacioso. Mas as aparências nunca foram tão enganosas.

Se durante todo o livro o leitor fica desconfiado com o que lhe é dito, não é porque o autor queira ou se vangloriar se ou se desculpar, como é corriqueiro em relatos autobiográficos. Pelo contrário, é possível que o leitor suspeite que o autor queira, a todo, se pintar com as piores cores. Pra completar a suspeita, a desenvoltura verbal dele é tamanha que a gente chega a se perguntar o porquê de uma tour de force tão autodepreciativa – com tanto empenho assim, não pode ser verdade.

Convenhamos, a fidelidade que temos à nossa imagem é falha, e não falo só de aparências. Que somos fiéis a nós mesmos, tudo bem, o egoísmo o prova – fidelidade legítima, autêntica. Só que ela não acompanha o que achamos de nosso caráter. Chega a ser pitoresco como a ação se distancia do autoconceito e como este é criado para encobrir, justificar e suavizar os resultados daquela. Somos infiéis quanto ao personagem que criamos na frente do espelho, e ler alguém tão determinado a foder essa imagem causa suspeitas de imediato.

Mas alguém precisa fazê-lo. Michel Leiris o fez. De forma magistral.

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