5 de abril de 2009

Templo

No Correio Braziliense de hoje li um matéria muito interessante. Não me refiro à reportagem sobre o primeiro assassino serial brasiliense, que foi muito didática e cronológica (boa reportagem), nem ao tema da Revista do Correio, "maldade", que comete altos equívocos retrógrados na hora de definir o Mal - por exemplo, Briony Tallis, a protagonista do livro Atonement (a matéria do Correio só menciona o filme, Desejo e Reparação) é vista como má, tadinha.

Enfim, o que li de interessante não foi nada disso. Foi a matéria, bem escrita, da dona Conceição Freitas sobre a reforma da Igrejinha.

Se você não conhece Brasília, uma brevíssima explicação. A tal Igrejinha é a Igreja Nossa Senhora de Fátima, da 308/309 sul, projetada por Oscar Niemeyer, "azulejada" por Athos Bulcão e antigamente ornada com afrescos de Alfredo Volpi (no passado, cometeram o sacrilégio cobrir o Volpi). Não é pouca coisa. Não mesmo. A Igrejinha nasceu de uma promessa da dona Sarah Kubitschek à Nossa Senhora de Fátima. Pedido atendido, milagre operado, promessa realizada, igreja construída. Veja a Igrejinha, que beleza.


Finalmente, ela está em reforma. Eu, particularmente, esperava por isso há anos.

Mas veja bem. Não sou cristão e tenho uma repulsa muito particular pelo Catolicismo. A Igrejinha, na minha cabeça, é antes uma obra de arte que um templo. Fui morador da 108 sul por alguns anos e eu a via todos os dias. Nunca enjoei dela. Apenas me queixava do maus-tratos a que aquele bando de cristãos a submetiam. Aí, quando finalmente todos os pauzinhos são mexidos (e não terços rezados) pra que a reforma aconteça, lá vem eles, os cristãos, atrapalharem tudo.

O título da matéria, Guerra Santa na Igrejinha, fala menos que o lead, bem explicativo: "De um lado, a arte moderna, abstrata, e colorida de Galeno. De outro, paroquianos que esperam um trabalho mais figurativo e uma Nossa Senhora de Fátima que seja a reprodução fiel da imagem que eles veneram."

É muito injusto que agora os paroquianos queiram intervir. A Igrejinha não fica em Recife, Salvador, Rio de Janeiro. Fica em Brasília. Arte figurativa não é bem a cara da capital federal. Além do mais, fico até meio rancoroso com o fato de terem (os cristãos) passado tinta nos afrescos do Volpi, impunemente.

Volpi

Uma dado interessante nisso é que o Galeno, o artista escolhido pelo IPHAN pra revitalizar Igrejinha, "se chama Francisco de Fátima Galeno Carvalho. Nasceu em 13 de maio de 1956, dia de Nossa Senhora de Fátima. E se chama 'Francisco de Fátima' porque um dos três pastores para quem a santa apareceu se chamava Francisco" (colei da matéria da dona Conceição). Apesar disso, sobre a Nossa Senhora a ser pintada no altar, ele não abre mão da própria arte, ainda bem: "Não vou fugir muito do que eu faço." Amém.

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