18 de maio de 2009

Experimento

© Torre Johnson / Magnum Photos

Este é um teste. Tento escrever em pé, como Hemingway. Ficar muito tempo sentado é um saco. É estranho escrever em pé, como estranho é todo novo hábito, mas acho muito interessante como isso afeta a maneira como quero falar/escrever. Está me forçando a ser mais breve. Talvez porque, assim, escrever seja um ato menos reflexivo, como seria se estivesse sentado ou deitado, escrevendo à mão, e mais proativo. É como se eu estivesse discursando.

(Pausa.)

Durante as pausas entre um e outro período, em vez de coçar a cabeça, ou olhar pra cima com as mãos ainda no teclado, ou coçar os olhos, ou solucionar no Google uma dúvida, em vez disso tudo levo as mãos à cintura (como o Superman), dou dois ou três passos pra cada lado, alongo as pernas, ou os ombros, como um pugilista, e volto a digitar, iniciando um período novo cheio de energia.

Escrever em pé está me proporcionando uma sensação nova. Tão nova que mudou, como estou vendo neste exato segundo, a maneira como normalmente escrevo. Estou tão contaminado pela novidade, e tentando narrá-la em tempo real, que meus períodos soam secos, duros, inflexíveis. Será porque só o que já foi repensado mentalmente é que ganha sua forma definitiva ou, pelo menos, perene no papel/tela? Eu não tive tempo de repensar esta experiência, estou a vivendo aqui e agora, como todos os percalços de iniciante.

O primeiro deles foi procurar o pen-drive. Estou no notebook, que não é online. Preciso salvar isso aqui pra poder postar no blog. O segundo: o apoio certo. A mesa da sala é muito baixa. Escrevi os primeiros períodos deste texto (até “...saco.”) com a coluna projetada pra frente; o resto do primeiro parágrafo todo, de pernas abertas, tipo Freddy Mercury. Não deu muito certo. Agora, pus sob o notebook os volumes do Lost Girls – os três vem numa luva capa-dura. O apoio é sólido, mas fica sambando um pouco, porque o note é maior. Quando digito a ou z tudo treme um pouquinho aqui. Vou trocar pelo Dicionário Houaiss. (Pausa.) Troquei. Deve ter ficado 3mm mais alto. E continua tremendo.

Parei por uns segundos, li o parágrafo anterior e não consegui lembrar do terceiro percalço que havia imaginado. Foda-se.

Tenho colunas pra entregar no Digestivo, o que significa ficar sentado mais tempo do que gostaria. Vou escrever uma e reescrever outra assim, em pé. Até dez minutos atrás eu jamais havia imaginado escrever em pé. Sabia que Hemingway escrevia assim, numa daquelas Olivetti ou whatever, muito diferentes desse meu suave Dell. Ficar em pé e escrever numa porra mecânica é para machos mesmo.

(Parei mais alguns segundo pra avaliar o parágrafo anterior. O texto sobreviveria sem ele tranquilamente, talvez até fique melhor sem ele, mesmo que eu não saiba onde nem como isso vai se concluir. Mas vou deixar como está.)

O curioso é que prefiro ler em pé, e andando. Se for em inglês, em voz alta. Por alguma razão que nunca entendi, sempre vi a leitura como um comportamento passivo, mesmo a desempenhando em movimento, e escrever, ativo. Mas só agora percebo que são atividades “impolarizáveis”. São ativas e passivas, ao mesmo tempo. Por isso é tão perfeito, e tão gostoso.

--

Nota: do ponto final do texto acima até o momento de sua publicação aqui, foram 14 minutos. Tempo em que fui ao banheiro, loguei no Google/Blogger/Gmail, procurei a foto do Hemingway, inseri os links e digitei esta nota. 

Nenhum comentário: