8 de maio de 2009

Intolerância

Minha filha foi promovida nas aulas de natação. Da turminha de “acquababy”, na qual os pirralhos entram acompanhados por um dos pais, passou para a de natação infantil, onde eles se descabelam sozinhos. No primeiro dia de aula na nova turminha, cheguei cedo demais. Esperamos à beira da piscina o tempo passar, eu e ela conversando discretamente no nosso dialeto particular.

Dora, minha filha, parou um pouco de falar e achou mais interessante escalar uma porta cheia de frisos e de dois metros de altura. Tudo bem, fiquei observando. E enquanto a observava, comecei a prestar atenção ao papo que duas jovens mães levavam ao meu lado. Uma aparentava menos de trinta, a outra, pouquinho mais. O jeito dondoca de vestir e falar é bem a cara do nosso bairro, o Sudoeste. O filho de uma, da mais nova, ainda iria entrar na piscina, ela esperava como eu a hora de começar a aula. O filho da outra, de uns quatro ou cinco anos, estava saindo da aula dele, noutra piscina. Uma dupla chegando, outra saindo, elas se encontraram e começaram a conversar. Um papo muito interessante.

Claro que o assunto era a educação dos filhos. Se você já tiver crianças, sabe como é. É um assunto corriqueiro. Inclusive, é uma ótima maneira de iniciar conversas (com quem já tem filhos). Eu começaria ouvir o papo delas de qualquer forma, pais e mães sempre tem algo a acrescentar, alguma dica a dar a outros. É uma troca de informações freqüente, mesmo que dessa forma: abelhudando o papo alheio. Número de pediatra, indicação de lojas de roupas baratas, uma receita de berinjela disfarçada de alguma coisa gostosa, e por aí vai – a gente vive trocando figurinhas. Mas aquelas figurinhas que as duas mães trocavam não eram exatamente as que eu queria pra minha coleção.

“Eu falo pro meu filho: ‘Não, não ande com aquele coleguinha ali, não,viu? Ele não é boa influência’. Falo mesmo!”, dizia uma, ao que a outra respondia: “É, a gente tem que ter cuidado mesmo. Não pode deixar, não”, e a primeira complementava: “É má influência mesmo! Não quero isso perto do meu filho de jeito maneira!”, e a segunda prosseguia: “Começa assim, cedo mesmo. Cada uma que cuide do seu...”, e etc.

Elas não conversavam assim, nesse ping-pong. A fala de uma cortava o final da fala da outra, típico de quem quer falar mais e ouvir menos. Elas se referiam, pelo que percebi, a crianças de outro meio, acho que da escola. E ambas continuaram o exercício pseudopedagógico. E eu prestando atenção. (E Dora escalando a porta.)

The Face of Racism, 1963. © Flip Schulke/CORBIS

Duas mães jovens, bonitas, bem de vida, dando lições de intolerância aos filhos. Estigmatizando e excluindo coleguinhas dos meninos – e plantando nos próprios filhos, desde a infância, a semente do preconceito.

Maternidade/paternidade: assunto difícil. Difícil pra caralho. Os pais fazem o que podem (uma tia de quem gosto muito já me disse que “Fazem o que conseguem!”). Mesmo que aquela mãe creia estar educando, não pude evitar o pensamento de que aliciar o próprio filho com o fim de afastar outra criança é uma demonstração obtusa de insegurança maternal. O menino vive a vida dele, e você cuida pra que ele, o filho, vá vivendo e aprendendo.

No fundo, poucos pensam em rever valores e atitudes quando viram pai/mãe. A primeira coisa que passa pela cabeça e se incorpora ao papel de educadores é o de transmitir os valores já estabelecidos. É o medo da transgressão, da quebra de hábitos familiares.

Um outro exemplo de intolerância me fez pensar, inclusive, que não deve ser só o medo da mudança, mas uma vontade direta e clara de estigmatizar. Okay, talvez eu esteja exagerando, mas foi o que pensei quando a seguinte coisa aconteceu.

Reunião de pais na creche. Adoro. Geralmente falo o mínimo possível, quando falo. Cedo a vez a quem gosta de barraco, de criar debates calorosos sobre coisas que não farão a menor diferença na educação dos nossos pirralhos. Numa dessas reuniões, pediu pra falar uma certa mãe (a qual minha esposa, hoje, me confirmou ser muito, digamos, “contundente” – barraqueira). A tal senhora, mãe de duas filhas (de 5 e 6 anos, ou 4 e 5, seilá), apresentou a seguinte proposta: que nas agendas de acompanhamento que nós, pais, recebemos todo santo dia, além das observações alimentares e pedagógicas, houvesse avisos sobre coleguinhas com piolho ou com “coisas” contagiosas, tipo gripe. Porra, qual é?

O que é que eu vou fazer com uma informação dessa? Cochichar no ouvido da Dora: “Não brinque com o Joãozinho, ele faz dodói”? Crianças doentes não vão pra creche. Ponto. A creche sabe disso, os pais sabem disso, inclusive essa mãe separatista. Mas pense bem: abrir a boca no meio de umas sessenta pessoas e sugerir uma medida “preventiva” para uma coisa que nunca acontece, medida esta cujo efeito seria estigmatizar, é ou não é uma vontade louca de impor um valor escuso sem dar brechas à tolerância e à compreensão?

Pode ser carência. Tem muito de insegurança. Há, sem dúvida, uma dose de medo (não sei precisar do quê, exatamente). Mas parece haver um gosto inegável pela intransigência, mesmo.

Voltando às dondocas, elas se despediram quando a aula ia começar. Uma saiu, com seu rapazote. A outra ficou, a mais jovem, sentou ao meu lado e assistiu à aula do filho, recém coleguinha da minha menina. Não propriamente conversamos, mas trocamos umas frases. Ela se queixava de que os professores estavam fazendo “coisas muito perigosas” com as crianças, do tipo: mergulhos de, se muito, um metro de altura – um metro. Eu ouvia esse tipo de coisa, e olhava pras crianças pulando na piscina, cheias de vontade, todas sorrindo.

Acabou a aula, pegamos nossas crianças, conversei com a professora, fui trocar a Dora. Eu a levei pra almoçar.

Nenhum comentário: