12 de fevereiro de 2010

Tipos brasileiros

Aqui em Brasília há representantes de todos os estados e de vários países (as embaixadas estão todas aqui). Esta cidade cinquentenária é composta por forasteiros, eu mesmo meio que sendo um deles. A gente acaba conhecendo, nem que seja em pequenas amostras, a identidade folclórica desse pessoal todo, características básicas mesmo. O que comem no café da manhã, o sotaque, as saudações, essa coisa toda.

Porém, analisar os tipos que encontramos em Brasília talvez não seja algo fidedigno, pois os objetos de estudo não estão no seu habitat natural. Os exemplares do sul, por exemplo, devem sofrer um tanto com a secura, e com o calor. Isso deve lhes alterar a percepção do mundo e o batimento cardíaco. Ou não, talvez eles sejam daquele jeito mesmo e eu que estou viajando. Porque, veja bem, todo gaúcho que conheci aqui no cerrado ― nunca fui ao Rio Grande do Sul ― fala alto e vigorosamente, como se sempre estivesse tentando me convencer de uma verdade absoluta e premente que só eu não consigo enxergar. O sotaque carregado adiciona mais dramaticidade à cena ― e eu sempre tenho a impressão de que o gaúcho finge ter mais do sotaque que já tem. Não sei se eles são assim no dia a dia portoalegrense. Aqui no planalto central, são.

E há os hábitos, as tradições. Imagine você: um calor infernal, nenhum décimo de brisa em qualquer direção, umidade relativa do ar a 18% e o fulano tomando chimarrão, o líquido fervente lhe descendo esôfago adentro. Acho massa.

Na verdade, é um traço de todos nós brasileiros esse de estar pouco se fodendo para temperatura ambiente na hora de ingerir algo. Já vi gente comendo buchada de bode à beira da praia. E depois ir mergulhar. Enfim...

Há também as comunidades nordestinas no Distrito Federal. Delas, a mais fechada, e talvez a mais numerosa, seja a de pernambucanos. Eu, mesmo sendo um, jamais me enturmei com a moçada, por falta de interesse, e nunca conseguiram que me enturmassem, por falta de química. Mas a comunidade existe, inalterada, tomando Antártica todo fim de semana ao som de Alceu Valença. Tenho a impressão de que eles se negam a aceitar que estão no beachless planalto central, e por isso sempre que se reúnem choram juntos o desprazer de estarem exilados.

(O Distrito Federal é um quadradinho no meio do Goiás. Estamos cercados por goianos por todos os lados. Mesmo assim, não sei o que dizer deles. Ainda não os entendi. Só sei de uma coisa: pequi é ruim pra cacete.)

Os oriundos do Rio de Janeiro parecem os mais soltos e relaxados no cerrado. Não que tenham se adaptado ao deserto, nada disso; nem, muito menos, que gostem disso aqui. Mas porque cariocas estão em contato constante com a terra natal. Sempre que dá, qualquer feriado mixuruca, eles vão embora pra sua terra. Esta certeza de que verá a terra amada faz deles pessoas tranquilas. Inclusive, ouso dizer que há mais flamenguistas no Distrito Federal que no próprio Estado do Rio. É impressionante.

Isso me lembra que existe a relação cidade-futebol. Esses flamenguistas todos aqui no DF, claro, não são cariocas de nascimento. Em boa parte dos casos, nem os pais são. É um fenômeno brasiliense torcer para times "estrangeiros". Conheço vascaínos que nasceram em Goiás, botafoguenses do Pará, palmeirenses de Taguatinga, corintianos de Cuiabá (etc.), todos eles morando em Brasília. Ninguém aqui é torcedor genuíno do Gama, ou do Guará, ou do Braziliense. Estes times, na verdade, sempre saem perdendo nas permutas do sincretismo ludopédico. O torcedor do Gama que também torce pro Palmeiras levantará a bandeira do segundo em detrimento do primeiro quando eles se enfrentarem no Estádio Mané Garrincha. É assim.

Aliás, uma observação ainda sobre futebol. Há algo atávico nos times gaúchos e mineiros. Aquele sincretismo só ocorre com times cariocas e paulistas. Desconheço colorados brasilienses de ascendência manauara, nem atleticanos do cerrado de origem sergipana. Se é brasiliense e torce pro Grêmio, ou nasceu lá ou é de família gaúcha. Mesma regra para cruzeirenses.

Os paulistas... Não, não existem paulistas no Distrito Federal.

Recentemente, tive a oportunidade de conhecer os mineiros em seu habitat natural. Uma visita a Belo Horizonte. (Agora começa a parte do texto pela qual os mineiros me presentearão com pensamentos negativos.)

Eu achava que já os conhecia. Há muitos mineiros por aqui e eu já visitei algumas cidadezinhas mineiras, inclusive por um motivo de gosto duvidoso: festa agropecuária. Enfim, eu achava que os conhecia. Pão de queijo blablablá. Mas não. Depois de alguns dias em Belo Horizonte minha ideia deles mudou um tantinho. Eles são mais mineiros lá do que aqui. Isso tem a seguinte razão de ser. A geografia.

Um quadro comparativo antes. Dependendo de onde estiver, o morador de Brasília tem 360º de abóbada celeste, horizonte para todos os lados. As vias principais são largas e, obviamente, planas, com uma ou outra elevação, mas é pouca coisa. Embora a cultura do parar-na-faixa funcione muitíssimo bem, Brasília não é uma cidade para pedestres ― isso quer dizer que o andarilho é solitário, compulsoriamente.

Ao contrário do andarilho mineiro, compulsoriamente acompanhado por outros ― e nem sempre isso é desejável. Aquelas ruas estreitas e sem horizontes, cheias de sobe-e-desce, provocam a sensação de clausura. Contato humano forçado não é gostoso. Falta de horizontes e enclausuramento também não. O que leva à famigerada introspecção. Introspecção mineira. Além daquele ar de desconfiança sorridente que eles exalam. Os rostos são conhecidos, familiares. Qualquer rosto ou sotaque alienígena causa receio. Enquanto estive lá, não consegui receber uma resposta direta. Acho que a primeira coisa que lhes passava pela cabeça era algo do tipo: "Quem é esse forasteiro e o que ele realmente quer de mim?".

Lembro de Alceu Amoroso Lima, via J.O. de Meira Penna: "O mineiro jamais fala, murmura. Não pensa, rumina ideias. Não discute, resmunga. Não avança, perscruta o caminho".

É verdade.

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Publiquei primeiro aqui.

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