7 de fevereiro de 2010

UFC 109 - Relentless

Ainda estou processando alguns resultados de ontem à noite, no UFC 109. Meu ídolo, Demian Maia, fez uma luta morna e, inacreditavelmente, demorada. Durou os três rounds. Eu estava muito acostumado a vê-lo finalizando oponentes no primeiro ou início do segundo round (Jason MacDonald, finalizado no terceiro com mata-leão, é uma exceção). Mas foi bom constatar que ele evoluiu na trocação. O “boxing camp” com a equipe dos irmãos Nogueira, sob a tutela do treinador de boxe Luis Dórea, e com o auxilio nos treinos do Junior Cigano, deu resultados. Essa é a primeira luta pós-derrota do Demian, natural que a confiança fique um pouco abalada. Mas ele evoluiu, está começando uma nova fase na carreira e daqui a pouco a gente vai vê-lo finalizando todo mundo no Octógono.

Não vi a luta do Ronnys Torres. Uma pena que tenha estreado com derrota. Justamente pra um cara de tão pouca intimidade com o jiu-jitsu como o Melvin Guillard. Tenho esperanças em Ronnys (embora acredite que, para divisão do BJ Penn, o único brasileiro, hoje, capaz de derrotá-lo está numa categoria diferente, o José Aldo).

A luta do Rolles Gracie me causou um tremendo mal-estar. Eu simplesmente não acreditei no que vi. Talvez todos nós tenhamos criado muita expectativa em relação ao nome Gracie – desconsiderando a obviedade de que um lutador com um cartel de apenas três lutas (todas vitórias, aliás) é, sim, inexperiente para estar no UFC. Subjetividades psicológicas de lado, o que me deixou mais constrangido foi a falta de preparo físico do Rolles. Brock Lesnar também era inexperiente quando entrou no Ultimate, mas fez o dever do atleta: preparou-se. Mal vejo a hora do Rolles Gracie dar shows de jiu-jitsu entre os pesos pesados.

Frank Trigg versus Matt Serra. Meu Deus, quando li que haveria este encontro, eu pensei: “O duelo dos trágicos”. Trigg, o cara que ofereceu o pescoço a Matt Hughes – duas vezes. Serra, o homem de uma única vitória expressiva na carreira, aquela em cima do Georges St Pierre, “a maior zebra da história do MMA”. O que esperar de uma luta de dois veteranos cujas credenciais são ou ser uma zebra ou ser um vacilão? De qualquer forma, o premio de nocaute da noite concedido a Serra foi justo. No final das contas, foi uma boa luta. E trágica, como não poderia deixar de ser em se tratando desses dois: a vitória não garante nada a Serra, nem boa colocação no ranking dos meio-médios, nem a chance de disputar o título novamente, nem nada além da recompensa financeira; e a derrota de Trigg só acentua sua solitária jornada rumo ao limbo dos coadjuvantes na história do esporte.

E o evento principal na noite, alguma surpresa? No fundo, eu gostaria que o Couture perdesse, mas apenas por uma questão de justiça esportiva. Ele não merecia ser declarado vencedor na luta contra Brandon Vera no UFC 105. Só por causa disso eu tinha um desejo secreto que Mark Coleman o martelasse até o árbitro parar a luta com um Randy Couture desacordado. Ah, mas isso não é suficiente. Randy “The Natural” Couture, esse coroa é inacreditável. Venceu e convenceu. Durante o pouco tempo de luta, cheguei a me perguntar onde estava aquele Mark Coleman que trucidou o mais jovem e raçudo Stephen Bonnar no UFC 100. O Coleman de ontem parecia com aquele velhote que lutou contra Mauricio Shogun no UFC 93. A idade chegou pra ele, uma pena. Seria divertido vê-lo contra Tito Ortiz. Agora é uma questão de tempo Randy disputar o cinturão dos meio-pesados. Contra Shogun, espero eu.

Pra mim, os caras da noite foram Paulo Thiago e Chael Sonnen. Por motivos diferentes, é claro.

Paulo Thiago. É dele que Georges St Pierre precisa. Um cara que não treme na base, um cara frio, corajoso. Contra Josh Koscheck (UFC 95) falaram que ele tinha várias falhas no jogo em pé. Venceu por nocaute. Contra Jon Fitch (UFC 100) e Jacob Volkmann (UFC 106), que tinha uma estratégia confusa. Perdeu aquela, ganhou essa, ambas por pontos. Agora, contra Mike Swick (UFC 109), acho que ninguém tem mais nada o que dizer contra ele. Venceu e alucinou. Se eu fosse o Joe Silva, o próximo desafiante de GSP seria o vencedor de Paulo Thiago versus Paul Daley.

Que figura é Chael Sonnen. Não faz jiu-jitsu nem trabalha com finalizações porque, francamente, não se acha bom nisso, e “em cadeia nacional deitar de pernas abertas embaixo de um homem” não é uma coisa que ele, um republicano, goste de fazer (confira aqui). Se todos os lutadores pretendem liquidar o adversário o mais rápido possível, Chael Sonnen fala em alto e bom som: “I’ll go the whole fifteen minutes!”. Se todos ovacionam Anderson Silva como o melhor lutador do momento, um dos melhores da história do esporte, e se todo lutador honrado prefere sempre se testar contra o mais forte, Chael Sonnen discorda – Chael Sonnen acredita em Vitor Belfort como superior a Anderson Silva, mas prefere que Vitor Belfort perca – assim, ele, Sonnen, disputará o cinturão contra um lutador, na sua visão da coisa toda, mais fraco: Anderson Silva (confira aqui).

Chael Sonnen está de parabéns, aliás. O que ele conseguiu ontem foi extraordinário para um wrestler tão limitado como ele. Acompanhe o raciocínio: Sonnen foi finalizado por Demian Maia com relativa facilidade no UFC 95. No UFC 98, venceu por pontos o falso versátil Dan Miller; e também por pontos, derrotou Yushin Okami, UFC 104 - esta vitória, sim, uma credencial. No UFC 109, enfrentaria o número dois no ranking dos médios e o homem que nocauteou seu algoz Demian Maia. Nate Marquardt era o favorito nesta luta em qualquer mesa de aposta da galáxia. Marquardt, mais forte, mais jovem, mais veloz, de fato polivalente, perdeu para um Chael Sonnen cujas características positivas mais salientes, para este duelo, eram confiança e preparo físico. Em suma, raça. A luta foi ótima de ver. Mas foi chocante. Marquardt neutralizado por um oponente de poucas habilidades foi chocante. Sonnen mereceu a vitória.

PS: Mais declarações hilárias do Sonnen aqui e aqui.

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