21 de fevereiro de 2010

UFC 110: Nogueira vs Velasquez

Às vezes, as coisas não parecem fazer sentido. É como se de repente a lei da gravidade fosse revogada e o tempo não mais transcorresse no habitual segundo após segundo, mas em saltos desconexos, e, mesmo assim, paradoxalmente, na direção certa: o futuro. Acordei com essa sensação de anormalidade relativa hoje, por causa dos resultados do UFC 110 de ontem, em Sidney, Austrália.

O dia era 27 de dezembro de 2008, UFC 92: The Ultimate 2008. Pela primeira vez na carreira, Minotauro sofreu um nocaute. O autor, Frank Mir. Aquele Minotauro no ringue era outro, um impostor, alguém substituindo o verdadeiro Antonio Rodrigo Nogueira, porque era ilógico, improvável, diria até errado que Mir o vencesse daquela forma – e o venceu. Logo após a luta, para os menos informados, Dana White, presidente do UFC, não poupou elogios ao nosso lutador por ter aceitado lutar mesmo doente.

Ah, agora as coisas faziam sentido. Além de problemas no joelho, que o fariam passar por uma cirurgia em fevereiro de 2009, Minotauro contraira estafilococos, motivo pelo qual teve de ser hospitalizado e acamado por quase uma semana. Ele livrou-se dessa “condição” a apenas sete dias da luta. Enfim, tudo faz sentido agora. Mesmo que o discurso pós-luta de Frank Mir tenha sido um dos mais bonitos que já vi no UFC, mesmo que Minotauro, cavalheirescamente, tenha reconhecido os méritos de Mir, em saber dosar a distância e não arriscar fazer luta de chão, eu, pessoalmente, nunca considerei aquela porra daquele nocaute. O cartel do Minotauro ainda estava intacto, sem nocautes nem finalizações sofridos.

Porém, Velasquez reordenou o alinhamento dos astros e alterou irrevogavelmente a História, deixando claro como o sol o que representam as palavras passado, presente e futuro.

Daniel Herbertson/Sherdog.com

É com muita mágoa que digo: o heroísmo que Antonio Rodrigo Nogueira, o Minotauro, demonstrava no Pride não é mais viável no esporte como ele é hoje. Os pesos-pesados de agora não podem mais se dar ao luxo de abrir mão da velocidade. Velasquez provou isso. Hoje, entre pesos-pesados, usar a estratégia de “cansar o adversário” é apenas uma maneira de parcelar o próprio suicídio. Velasquez, ontem, queria o fim imediato da luta a partir do primeiro segundo. Vivemos outro mundo, para o qual Velasquez nos acordou (seria mais apropriado dizer “no qual nos arremessou”) apagando Minotauro. Um nocaute legítimo, aplicado sobre um oponente em boa fase e fisicamente são.

Olho o futuro já com melancolia. Um futuro, neste esporte, em que Minotauro não esteja parece irreal a nós brasileiros. Mas não. Velasquez provou que não. Velasquez matou ilusões.

Seu nome é Cain.

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