30 de março de 2010

Physica Curiosa

Sempre fico impressionado com quem não dá atenção alguma aos pés. Se for homem, por não saber apreciá-los; se for mulher, por não cuidá-los (embora nem sempre seja possível embelezar os pés, como você verá mais adiante). Acho que existe um equívoco generalizado na maneira de ver os pés. Que implica na maneira de perceber o corpo como um todo. A maioria das pessoas divide o corpo em dois: cintura para baixo, cintura para cima. A parte inferior fica como meio de transporte subutilizado e, às vezes, como instrumento parcial para o coito. No baixo extremo, estão os pés, certamente a parte do corpo de maior contato com o mundo, contato praticamente ininterrupto. Daí ser visto como pouco higiênico, como acessório, como grosseiro, por aí vai.

Isso para quem parcela o corpo. Para quem vê o corpo inteiro, a história é outra. A começar pela própria visão integradora de si mesmo. "Eu sou eu da sola do pé ao topo da cabeça." A região que vai da cintura aos pés não é uma estranha ― e isso tem consequências fortíssimas na maneira como ver o sexo. As mulheres são espertas e percebem a integralidade do corpo. Elas não batizam as pererecas com nominhos bobos. Já os homens... "Max", "Estaca", "Gladiador" etc. (A escolha de nomes masculinos, "Tonho", ou femininos, "Espada", é um bom questionamento.) O sujeito e o pinto são um só, oras. Nomear o próprio pinto e fazer dele parceiro de gandaia equivale a ter tesão em ver outro homem com a sua própria mulher.

Como se vê, essa divisão corporal ecoa em problemas muito mais profundos... Voltemos aos pés.

Esteticamente, porque estética é o nosso assunto, existe uma clara divisão de papéis quanto aos pés: homens admiram, mulheres exibem. Nossa função é apreciar, analisar, fazer ensaios, fotografar, fazer massagem, beijar. O pé é tão nobre quanto qualquer outra parte do corpo e tem seu apelo estético. Os podólatras sabem do que estou falando.

Tive a felicidade de casar com uma mulher bela e que tem pés lindos, e tudo o mais. Antes dela, costumava passar horas com alguns amigos, também podólatras, filosofando sobre e analisando pés. Um deles, até hoje solteiro e exímio caçador, cumpria o ritual de todo podólatra decente: antes de qualquer coisa, checar o pé dela primeiro, se der; dando e sendo aprovado, aí sim o jogo começa. Se não der pra checar (sapato fechado) e a moça aparentemente valer a pena, a jogada continua, com ressalvas. O objetivo é ver o pé dela o quanto antes.

Para as várias namoradas que este meu amigo teve, pés bonitos eram indispensáveis. Sem pés bonitos, nada de relacionamento a médio prazo (mas ele deixava claro que seu status de "fuck buddy" era disponível ad aeternum). Uma de suas ex-namoradas, infelizmente de podobeleza mediana, viu o namorico acabar subitamente. Houve um desentendimento entre eles. Um solução era possível, mas não muito fácil. Os pezinhos da moça resolveram o assunto, na cabeça dele. Acabou-se o namoro. Um cara implacável, eu sei. Ele é fotógrafo. Tem senso estético. Quando ele me contou a história, e revelou o que pesou na balança na hora de decidir ou não pelo fim da relação, eu acreditei no julgamento dele. Deviam ser mesmo pés insossos.

Um outro amigo, do qual sinto falta (passou num concurso público e mudou-se pra PQP), costumava fazer juízos sobre pés altamente artísticos e apaixonados. Às vezes eu prestava mais atenção ao discurso dele do que ao pé em questão. Era impressionante. Ele era do tipo, veja você, que ligava do supermercado: "Montana, vou fotografar um pé aqui na fila pra mandar pra você [via MMS]". Uma figura.

Figura que teve um fim trágico. Lembro como se fosse... semana passada. Ele andava engambiarrado com uma colega de faculdade. A moça, como ele mesmo costumava dizer, era "gostosa pra caralho". Mas de pés horrendamente medonhos. Um dedão que parecia uma batata, unhas encravadas... Um horror. Eu pude conferir ao vivo, à luz do dia, durante um churrasco. Era até engraçado como os demais comensais, alguns deles adeptos do fura-olhismo, não tinham o menor receio em falar da gostosura da menina, estando ou não presente o nosso amigo. Mas meus olhos não enxergavam outra coisa senão aqueles dois monstros de cinco cabeças. Dá até um troço aqui só de lembrar. Seriam um ótimo material para Gaspar Schott.

Claro, eu e este amigo nunca comentamos os pés dela. Eram o nosso elefante rosa no meio da sala. Depois que eles se casaram ― veja você! ― é que o assunto ficou mais obscuro que um mineiro de Kafka. Uma tragédia, a dele.

Tragédia porque pés são o que são. Uma moça insatisfeita com o mindinho não pode recorrer ao cirurgião plástico. E não há manicure que resolva um pé feio. É uma fatalidade. Entre todas as transformações físicas possíveis pelas quais as mulheres podem passar, inexiste a que embeleze os pés. O caráter naturalístico dos pés é um grande trunfo dos podólatras hoje.

A propósito, podólatras, grosso modo, são dois grandes grupos: os apreciadores mainstream, ou "baunilha", e os do BDSM. Este último tem outros interesses mais, digamos, saturados. Ser pisado, por pés descalços ou calçados, comer o que os tais pés esmagaram etc. O mero apreciador, por sua vez, tem senso estético mais apurado que o tal submisso. O apreciador não quer sofrer nem sofrer castigos pelo pé admirado. Ele age, degustando a beleza do pé para o qual olha. É um papel ativo, dedicado à adoração visual, tátil e, dependendo da intimidade, oral.

Uma coisa, porém, neste mundinho de pés, sempre me deixou intrigado. Pés bonitos só são percebidos por quem tem esse fetiche. Pés feios, por outro lado, têm uma força magnética incomensurável. A feiura urra.

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Publiquei primeiro aqui.

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