7 de abril de 2010

A carta de Porfírio Lopez

Preso, Porfírio Lopez escreveu uma carta. Ele sabia que morreria em pouco tempo. E foi em pouquíssimo tempo que essa certeza lhe apareceu. Nos últimos dez anos, por todos os esconderijos por onde passou, por todas as operações secretas que chefiou, por todas as balas que disparou e por todos aqueles a quem viu morrer, ou a quem matou, por todo esse tempo de rebeldia, Porfírio Lopez jamais duvidara que sobreviveria à revolução, às eventuais capturas, nunca conseguidas, e às nem tão temidas – por ele – torturas, nunca sofridas. O destino era certo, vitorioso. O governo contra o qual lutava há uma década ruiria graças à força de sua juventude e ao seu poder de líder revolucionário – era apenas uma questão de inércia. A ditadura do General Romero, para Porfírio Lopez, chegara ao fim no mesmo instante em que ele, menino espadaúdo, numa remota tarde de maio, no laranjal em que trabalhava, viu seu patrão, e pai adotivo, ser fuzilado pelas tropas romerinas. Assim nasceu o futuro vingador e comandante enérgico dos oprimidos, o profeta de Amacuro.

Toda convicção messiânica e beligerante de Porfírio Lopez, no entanto, lhe escorreu pela testa, na gota de suor que molhou uma recém aberta ferida na perna, enquanto admirava, boquiaberto, o que um Colt, à curta distância, pela astúcia de um dos seus captores, foi capaz de fazer. Era seu primeiro ferimento. Nunca havia sangrado antes. Nunca havia quebrado um dedo, nem estirado um músculo. Nunca sentira tanta dor. Desmaio.

Acordado. Sozinho. Encarcerado. A perna, agora bem amarrada sobre o ferimento, doía. A cama, três lençóis sujos, dobrados sobre o chão. O travesseiro, sua própria bota direita, a da perna ferida, que alguém, por humorada cortesia, lhe pôs sob a cabeça. No chão, no centro do cubículo, um lampião a querosene, um lápis, uma folha de papel em branco. Os romerinos esperavam nomes e lugares: nomes de rebeldes ainda à solta e lugares onde se escondiam. Porém, Porfírio Lopez escreveu uma carta.

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Comece assim se você pretende escrever um romance que se passe na América espanhola, em qualquer época.

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