28 de maio de 2010

A literatura de Giacomo Casanova

Desde a primeira vez em que ouvi "Casanova", o significado desde nome foi claro e simples. Talvez não lembre os detalhes da ocasião, mas sei que foi em algum desses eventos ingênuos, anteriores à adolescência, que envolvem coleguinhas de sala, na clandestinidade do recreio, e uma professora chata que interrompe a brincadeira, dá sermão, ameaça levar a sem-vergonhice à diretoria e, para terminar, alerta a garota do perigo que é aquele "projeto de casanova".

Algum tempo depois, descobri que casanova, ora elogio, ora xingamento, mas sempre bem-vindo, paga tributos a Giacomo Casanova, um conquistador veneziano do século XVIII, um homem irresistível, deflorador de centenas de virgens e amante de milhares de mulheres, um homem que, em meu teatro mental, por causa de Federico Fellini, sempre associei, na fisionomia e na indumentária, ao canadense Donald Sutherland. Isso era tudo o que sabia sobre Casanova ― e era tudo o que me parecia necessário saber. Foi um conquistador, desses de dar orgulho ao sempre carente, e muitas vezes inseguro, gênero masculino.

Hoje, porém, eu conheci Casanova. Graças a Ian Kelly, autor de Casanova ― Muito além de um grande sedutor (Jorge Zahar, 2009, 370 págs.). As milhares de mulheres que, dizem, ele conquistou são fabricações de terceiros; e o personagem que virou substantivo em várias línguas é unidimensional e medíocre quando comparado ao verdadeiro Giacomo Casanova, que, de uma ideia sexista, de proezas numéricas e rarefeitas, ganhou vida e narrativas próprias numa leitura que foi uma das melhores do ano, até agora.

Esta biografia (ótima edição da Jorge Zahar Editora), além de escrita na consagrada forma fluida e lúcida que caracteriza as melhores obras do gênero, fala da Europa pré-revolucionária, a época ideal para ser o palco onde a história da vida de Casanova seria encenada.

Ele nasceu em 1725, 2 de abril, em Veneza ― cujo carnaval se estendia por meses (de outubro à Quarta-Feira de Cinzas) e durante o qual o uso de máscaras era obrigatório a todas as idades e a todas as classes. O anonimato que as máscaras conferem e a permissividade em que isso implica alimentam as vontades mais secretas e pungentes de uma sociedade rigidamente dividida e de um Estado tão policialesco como o de Veneza. Um ambiente como este é capaz de gerar libertinos por cissiparidade. Este era o mundo do pequeno Giacomo. Sua família, aliás, representava parte da essência do Estado veneziano, o apelo estético e mascarador da vida e o comportamento sexualmente espúrio entre classes: sua mãe, atriz da commedia dell'arte, seu pai de registro, ator e dançarino, ambos os possíveis pais biológicos, patrícios que se ocupavam empresariando o teatro. Casanova vivia o jogo das máscaras desde pequeno.

O autêntico filho de Veneza, no entanto, viverá a vida que o consagrou fora de sua cidade natal. Viajará por toda a Europa e será um dos melhores autores do Gran Tour, a literatura de viagens.

Sua vida "adulta" começou como seminarista. Nada mais impróprio. Não demoraria a fugir do seminário. Claro, antes da fuga, ele havia de aprontar uma das suas, ao causar um enorme rebuliço por conta de visitas noturnas pouco ortodoxas a outros seminaristas. Contudo, no futuro ele seria habitué de conventos, onde freiras lascivas o esperavam e madres de muitos amigos realizavam abortos. Serviço este que Casanova solicitou algumas vezes.

O próximo papel de Casanova será o de militar. Depois, o de curandeiro, personagem graças ao qual terá um suporte financeiro fixo por décadas. A lista continua: diplomata, cabalista, empresário (criador de loterias), espião, chef, bibliotecário, romancista e outros. Eu teria dor na consciência em lhe contar mais do que isso. Roubaria de você o prazer da leitura.

Prazer na leitura foi, inclusive, um dos mais queridos por Casanova, leitor ávido, bibliófilo terminal, traduziu a Ilíada e tudo.

A beleza literária (estética) das coisas talvez seja o mais fascinante em Casanova. Não só ele viveu tudo aquilo, como teve o prazer da experiência multiplicado por narrar sua vida e saber que ler sua história seria o prazer literário de alguém.

História da minha vida, um colosso memorialístico de 12 volumes, é o livro no qual ele narra fracassos no amor e nos negócios, doenças venéreas de todo o tipo e seus tratamentos mais eficazes (e os nem tanto), conquistas amorosas de todo o gênero (inclusive incestuosas), os segredos místicos da cabala e seus usos menos probos, riquezas ganhas e perdidas, tudo.

No fim da vida, Casanova foi um grafômano soberbo. Suas memórias são narrativas prolixamente detalhadas, o volume de sua correspondência é ociosamente alto, a extensão dos seus romances é enfadonhamente longa.

Tinha de ser assim.

Casanova foi um sensualista, um dos maiores da História. Ninguém fez sexo tão bem quanto Casanova, inclusive porque ― que curioso! ― o sexo com amor era sua especialidade. Era incômoda a ele a ideia de sexo sem envolvimento emocional (mas ele fez este e outros sexos). Ninguém soube como ele apreciar o prazer à mesa, nem que fosse para comer um biscoitinho de Murano. E ninguém, é claro, soube unir com tanto requinte o sexo e a comida (preparava iguarias, a serem consumidas antes, durante e depois, com saliva e cabelos das amantes). E só ele soube unir ambos à literatura, ao nos deixar relatos tão preciosos de suas aventuras notáveis.

Tinha de ser assim porque, ainda jovem, Casanova, como você lerá na narrativa de Ian Kelly, experimentou, mesmo que numa dose pequena e pelos critérios de uma mente pouco vivida e autocentrada como a sua, o prazer da "glória literária". Ao final de sua vida, o escritor teve à sua pena um personagem extraordinário, ele mesmo, Giacomo Casanova.

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Publiquei primeiro aqui.

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