10 de maio de 2010

UFC 113: Machida vs Shogun II

Maurício “Shogun” Rua é o novo campeão na categoria meio-pesado (94kg) do Ultimate Fighting Championships – UFC, a maior organização de MMA do mundo. O cinturão pertencia a Lyoto Machida, um gênio estrategista, que perde pela primeira vez na carreira – uma carreira até agora impecável. Manter-se tanto tempo invicto e de tantas lutas sair ileso e vencê-las com brilhantismo fazem parte da inteligência que Machida soube usar com excelência até agora. Isso tudo, no entanto, estava em xeque desde o UFC 104 (Los Angeles, EUA, outubro de 2009), quando Shogun e Machida se enfrentaram pela primeira vez. Sete meses depois, xeque-mate de Shogun – aplicado não somente contra seu oponente, você verá por quê.


O primeiro evento Machida vs Shogun foi controverso. Machida venceu por decisão unânime dos juízes, unanimidade esta concedida por ter vencido os três primeiros assaltos de uma luta de cinco. Apesar vitorioso pela aritmética da pontuação, Machida saiu do Octógono vaiado, tendo de suportar o ginásio inteiro saudando a Shogun como verdadeiro vencedor. O então campeão não só demonstrou pouca eficácia em seus golpes contra o adversário, como, fato inédito, deixou o ringue machucado: mancando, com costelas feridas e lábio cortado.

Ninguém nunca havia atingido Lyoto Machida, o mestre da esquiva. Mesmo assim, ele permaneceu vencedor. Aquele evento mostrou como a arbitragem de MMA ainda é deficitária, pelo menos nos EUA, onde “chute nas pernas não vencem lutas”, segundo o famigerado juiz Cecil Peoples, oriundo do boxe – luta que não usa golpes de perna, você bem sabe. Maurício Shogun, durante cinco assaltos, golpeou repetidamente Machida com chutes nas pernas, eliminando as notórias velocidade e mobilidade do campeão.

A revanche foi imediatamente acertada. Dana White, presidente do UFC, entrou no Octógono para condecorar o ainda campeão de direito e, como é de sua índole, disse ao desafiante Maurício Shogun, deliberadamente, não se importando com as câmeras, nem com os espectadores presentes, nem com os milhões de telespectadores mundo afora: “Pra mim você venceu a luta”.

Machida vs Shogun II. Assim como da primeira vez, Machida era o favorito nas bolsas de aposta, embora a margem de diferença fosse menor desta vez. O fator inteligência estratégica sempre pesou a seu favor nestes sete meses, e desde quando seu nome começou a se tornar popular, na verdade. Curiosamente, foi exatamente por saber usar a estratégia que muitos deram a Shogun a vitória no UFC 104. Por ter realizado uma luta clínica, enxadrística, com um desempenho que deixou a todos boquiabertos, esperava-se que Shogun não se superasse em inteligência, porque, afinal, Lyoto Machida é Lyoto Machida. Porém, nesta segunda luta, Shogun superou a todos. Indiscutivelmente.

Shogun venceu Machida incontestavelmente. O epítome de uma vitória absoluta: nocaute de primeiro assalto. Mas Shogun não só derrotou Machida. Ele pôs em xeque a maneira de se lutar MMA hoje. Este esporte não comporta mais “lutadores filosóficos”: aqueles que não abrem mão dos princípios de sua luta de origem. Machida, o guerreiro invicto, o carateca mestre da filosofia da esquiva e do contra-ataque, importantes pilares do caratê, foi duramente abatido. Antes dele, o outro lutador filosófico, Demian Maia, igualmente gênio, mas noutra área, o grappling (combate agarrado de solo), pagou caro por seu exclusivismo. A filosofia suave do jiu jitsu, de não causar danos nem a si nem ao oponente, que manteve Maia invicto por tanto tempo, evanesceu com um nocaute. Nate Marquardt (UFC 102, Portland, EUA, agosto de 2009) demonstrou com um só soco o quão pouca era a intimidade de Maia com golpes traumáticos: chutes, socos, cotoveladas, joelhadas e habilidades correlatas, como o clinch. Esta derrota fez Maia buscar a necessária e urgente instrução em boxe.

Lyoto Machida era o dono do cinturão da categoria mais disputada do UFC e ele derrotado é a morte da filosofia unidimensional de luta. Não ignoro o fato de que Machida tenha sido um grande competidor de sumô, nem que é faixa-preta de jiu jitsu (tendo demonstrado este conhecimento noutras lutas, finalizando oponentes no solo), mas o caratê é sua filosofia de vida, além de legado familiar. Shogun já o havia decifrado há sete meses e no último sábado o desmantelou, mostrando que o lutador deve evoluir no aprendizado e se adaptar às minúcias de cada luta. Porque, cedo ou tarde, seus oponentes o decodificarão. A mobilidade circular, a habilidade à longa distância, o jogo de contra-ataque, toda a mágica de Machida foi desvendada em suas últimas duas lutas. Uma hora isso teria de acontecer. Aconteceu o mesmo a Minotauro, a Chuck Lidell, a Cro Cop, a tantos outros. Uma hora vão “manjar” seu jogo todo.

Não só manjá-lo, excedê-lo. O kickboxing de Cro Cop já foi considerado o melhor do mundo entre os pesos-pesados e russo Fedor Emelianenko o venceu no kickboxing (Pride, Saitama, Japão, agosto de 2005); a guarda de Minotauro é uma das melhores do mundo e o mesmo Fedor o venceu, duas vezes, de dentro de tão temida guarda (Pride, Saitama, março de 2003 e dezembro de 2004).

Shogun havia decodificado seu oponente no primeiro combate, anulando por completo o caratê Machida e surpreendendo a todos por ter alterado seu próprio estilo personificando um lutador tão cerebral, coisa que ninguém esperava. Mas desta vez, no UFC 113 (Montreal, Canadá, maio de 2010), Shogun sobrepujou o campeão invicto, vencendo o carateca com uma tática que, em teoria, era vantajosa para Machida. Shogun atacou, tomou a iniciativa da luta e aniquilou o extraordinário contra-ataque Machida. Ainda mais impressionante é saber que Shogun passou por uma cirurgia há apenas sete semanas: apendectomia. Cirurgia da qual o tempo médio de recuperação é de quatro a seis semanas.

A carreira de Lyoto Machida depende de uma grande transformação interna. Já é impossível continuar o mesmo jogo que o manteve vitorioso no MMA desde 2003. A mesma necessidade de se reinventar já assombrou o próprio Shogun. Ao fim do Pride em 2007, seguiu-se um período em que Shogun esteve muito desacreditado. Foi derrotado por finalização por Forrest Griffin (UFC 76, Anaheim, EUA, setembro de 2007), um lutador de muita raça e de técnica ínfima; contundiu seriamente o joelho e por isso ficou mais de ano sem lutar; recuperou-se e venceu sem convencer o decrépito Mark Coleman (UFC 93, Dublin, Irlanda, janeiro de 2009); e derrotou Chuck Lidell (UFC 97, Montreal, Canadá, abril de 2009), outro oponente em decrepitude. Foi disputar o cinturão contra um atleta de anunciava uma nova era no MMA, a “Era Machida”. O que aconteceu depois você já sabe.

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Sobre os demais combates principais do UFC 113:

- Georges St. Pierre ganhou de presente um raso desafiante ao cinturão dos meio-médios (77kg). Josh Koscheck, além de chato, é um lutador monótono, como sua vitória sobre Paul Daley claramente demonstrou. A única habilidade aparente de Koscheck é saber aplicar quedas, coisa que não vale absolutamente nada para enfrentar o campeão St. Pierre. Já Paul Daley, que prometia tanto ao MMA com seu excepcional poder de nocaute, foi definitivamente varrido do UFC por seu comportamento “koscheckiano” após a luta. Sua exclusão permanente do UFC mostra o quão sério é este esporte e esta organização.

- Kimbo Slice, Kimbo Slice... tsc tsc tsc. Que vergonha. Uma vitória sem brilho e uma derrota patética lhe garantiram férias por tempo indeterminado do Ultimate. Seu algoz, Matt Mitrione, já contabiliza um cartel profissional extenso: duas lutas, duas vitórias. Mas também foi acometido pelo “mal de Kimbo” e venceu sem purpurinas. Na verdade, a ênfase neste caso é outra mesmo: não foi Mitrione que venceu, foi Kimbo que perdeu.

- Sam Stout vs Jeremy Stephens. Stephens venceu Stout por decisão dividida. Nada mais eloqüente pra mostrar que ambos não são mais meros lutadores, nem são ainda grandes desafiantes. Enfim, mais lutas para os rapazes.

- Ah, Patrick Côté... Vencido pela inatividade: 18 meses sem lutar. Mesmo assim deu trabalho para Alan Belcher. E Belcher evolui a olho nu, mas ainda não o vejo como desafiante ao cinturão.

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