7 de maio de 2010

Uma pequena dúvida literária

O inspetor Javert captura Jean Valjean. Valjean é levado para cadeia, algemado. Porém, na mesma noite, ele escapa e surpreende a velha porteira de sua casa: “quebrei um ferro da janela, pulei do alto de um telhado e eis-me aqui”.

A simpática porteira, mesmo sabendo da prisão de seu empregador, quando chegou a noite, à hora em que ele costumava chegar do trabalho, realizou as mesmas tarefas de sempre, inclusive a de pendurar a chave do quarto de Valjean no prego próximo à janela de entrada da casa; e, ao lado da chave, pôs o castiçal, para que ele o acendesse e pudesse subir as escadas. Duas horas depois ela se deu conta de que seu patrão não chegaria – estava preso. Levantou-se afobada da cama e dos sonhos: “Ora, meu Jesus! E eu que pendurei a chave no prego!”. Foi então desfazer tudo. Mas espantou-se ao ver uma mão se introduzir pela janela, pegar a chave e o castiçal e acender a vela. Era Jean Valjean.

A narração de Victor Hugo continua assim: “Ninguém jamais soube como [Valjean] conseguira penetrar no pátio interno sem abrir o portão principal. É verdade que levava sempre no bolso a chave de uma porta lateral; mas, como já o haviam revistado, certamente não a tinha consigo naquele momento. Este ponto nunca pôde ser esclarecido.” Esta é uma cena do capítulo V, intitulado “Sepultura Digna”, do livro oitavo, “Contragolpe”, da primeira parte, “Fantine”, d’Os Miseráveis.

“Este ponto nunca pôde ser esclarecido”, diz o narrador de Victor Hugo. Não saber como Valjean chegou até ali, sem ter aberto o portão principal, confere a Valjean habilidades de um Jason Bourne ou de um samurai. Valjean é inteligentíssimo e extremamente forte, é ídolo. Mas sempre me pergunto se a intenção de Victor Hugo era a de conferir tais poderes, ou impressão de poderes, a ele, que é a provável, pois Jean Valjean é Jean Valjean, ou, quando penso nisso preparando uma peperonata ao som de Clara Nunes, se ele, Victor Hugo, por estar um pouco vexado para encontrar Juliette Drouet, resolveu deixar o mistério assim mesmo porque não conseguia escrever a cena de Valjean fazendo salto com vara para transpor o muro – só pensava na senhorita Drouet.

Continuo o exercício enquanto degusto a peperonata, tomando suco de beterraba. E se Victor Hugo pensou em fazer Valjean cavar um túnel sob o muro, um túnel que desse no pátio de sua própria casa, usando ferramentas da ACME Corporation? Imagino a sequência com Liam Neeson, numa das mais recentes encarnações de Valjean no cinema, com aquele porte soberano, aquele rosto majestático e aquele nariz inexcedível, cavando com uma a pá idêntica às que o Coiote usa nos seus curiosos planos de capturar o Papa-Léguas.

O exercício imaginativo acaba quando prato e copo não guardam mais vestígios nem de pimentões nem de beterrabas. Mas continuo com a vontade de saber como Victor Hugo escreveu este capítulo, principalmente esta cena entre Valjean e sua porteira, quando ele a surpreende tarde da noite, já um fugitivo. A chegada dele é narrada do ponto de vista dela, pois é a única possibilidade: o ponto de vista dele entregaria todo o ouro e hoje nós saberíamos o que ele fez para chegar ao pátio interno, sem abrir o portão principal. Nenhum outro ponto de vista é aceitável, visto que somente a porteira o viu chegar: se outra pessoa o visse, Valjean deixaria de ser o fugitivo invisível.

Há também o detalhe do castiçal. A chave, a porteira a pendura no prego, que está na parede; já o castiçal, “ao lado”. Ao lado? Nas palavras de Victor Hugo (pela tradução exemplar de Frederico Ozanam Pessoa de Barros): “Na hora em que Madeleine [Jean Valjean] costumava chegar, a boa porteira levantou-se maquinalmente, tirou de uma gaveta a chave do quarto do Sr. Madeleine e o castiçal que ele costumava levar sempre que subia a seus aposentos; depois colocou a chave no prego onde ele costumava encontrá-la e pôs o castiçal ao lado, como se o estivesse esperando”. Poxa vida, ela também pendura o castiçal? É bem provável que não. Havia ali um aparador, encostado à parede? Aliás, Valjean acende o castiçal. A porteira também deixou por ali fósforos? Valjean andava com algum Zippo no bolso?

Enfim, dúvidas. Dúvidas pequenas, envolvendo detalhes que não alteram a qualidade d’Os Miseráveis. Veja você, é mais fácil ler Os Miseráveis do que qualquer coisa do José de Alencar. Um livro caudaloso de leitura corrente.

Nenhum comentário: