6 de julho de 2010

O Rei dos Pesos Pesados



A geopolítica dos pesos pesados no MMA mundial mudou em apenas uma semana. O inconteste número um da divisão é agora Brock Lesnar. A vitória dele sobre Shane Carwin somada à derrota de Fedor Emelianenko para Fabrício Werdum resulta nesta nova configuração do esporte. O argumento é simples: agora, o UFC é, indiscutivelmente, o melhor evento de MMA do planeta. Havia senões quanto a isso, uma vez que Shinya Aoki e Fedor lutavam pelo Strikeforce e eram os maiores em suas respectivas categorias. Aoki, contudo, foi derrotado por decisão unânime em abril deste ano por Gilbert Melendez, na mesma noite, aliás, em que Jake Shields derrotou, também unanimemente, a Dan Henderson, retendo o cinturão dos médios daquela organização – para logo depois descartá-lo, pois vendeu seu passe ao UFC, confirmando assim que todos os lutadores tops estão, hoje, na folha de pagamento da Zuffa, LLC (entre eles o elenco do WEC, a elite dos pesos ligeiros: leve, pena, galo).

Ao Strikeforce, depois de Melendez vs Aoki (Strikeforce: Nashville, 10 de abril, 2010), só restou Fedor como galinha dos ovos de ouro. Mas quem cantou de galo mesmo foi Werdum. Fedor vencido de maneira inquestionável: um minuto e nove segundos de luta, um triângulo bem encaixado, a desistência que fez história.

Havia muito tempo que Fedor não fazia uma luta decente. Sua luta anterior contra Brett Rogers (Strikeforce: Fedor vs Rogers, 7 de novembro, 2009) não havia me convencido. Eu sei, foi uma luta interessante de ver, mas achei uma vitória pouco expressiva. Ele sofreu golpes e se quebrou todo (mão e nariz) no primeiro round; venceu no segundo um oponente claramente cansado. É este tipo de vitória que querem atribuir àquele que dizem ser o melhor peso pesado da história do esporte, um dos melhores peso-por-peso e o então reinante em sua categoria? Eu atribuo este tipo de vitória a Edson Conterrâneo, não ao Último Imperador. O adversário dele, Rogers, tinha a seu favor um currículo imaculado, só vitórias em dez lutas. Antes de Fedor, lutou e venceu a Arlovski, que àquela época (Strikeforce: Lawler vs Shields, 6 de junho, 2009), era o nome famoso de um queixo de vidro. Queixo este que o próprio Fedor já havia quebrado poucos meses antes (Affliction: Day of Reckoning, 24 de janeiro, 2009). Quer dizer...

A gente pode fazer a seguinte brincadeira. Discutir qual foi a última grande vitória de Fedor. Pra mim, foi a que aconteceu em 28 de agosto de 2005, pelo Pride, em Saitama, Japão, contra Mirko Cro Cop. De lá pra cá, não vi nenhum oponente à sua altura.

Passou o tempo e, em 26 de junho de 2010, o que a maioria maciça dos fãs de MMA queria era ver a provável vitória de Fedor sobre Werdum, outro adversário cotado para ser boi de piranha.

Fabrício “Vai Cavalo” Werdum triangulou o Último Imperador, . Para quem acha que isso foi uma zebra, recomendo repensar o combate. A começar pelas declarações de Fedor, no decorrer de junho, sobre se aposentar. Uma nova geração tem ocupado o lugar dos antigos na divisão mais glamorosa das lutas – e muitos pesados têm descido de categoria para se acomodarem tanto à idade quanto ao vigor físico. Fedor viu o fim se aproximando. Além do mais, sua recusa em lutar no UFC sempre me soou estranha. O natural é a gente se testar com adversários fortes, que possam oferecer riscos. Mas se recusar a comprovar a própria soberania é esquisito. É pouco esportivo, inclusive.

A vitória de Werdum foi uma zebra? Foi improvável, mas não sei se foi zebra. Zebra foi Serra vs St Pierre I, aquilo foi zebra. Uma vitória improvável baseada na sorte. O que não foi o caso de Fedor vs Werdum. Mesmo que você argumente que Fedor vacilou por mergulhar na guarda do Werdum duas vezes seguidas, ou seja, mesmo que você atribua o resultado da luta ao equívoco do Fedor e não à habilidade do Werdum, lembre que Werdum foi campeão brasileiro de jiu jitsu e campeão no ADCC. Veja bem, Fedor venceu Minotauro duas vezes de dentro da guarda dele . Era por que isso que Fedor realmente era grande: vencia os oponentes onde eles eram melhores. Não foi vacilo ele estar na guarda do Werdum, foi confiança. O resultado, porém, foi outro. Em suma, não foi sorte de Werdum, nem equívoco de Fedor. Acho que não foi zebra.

A vitória de Werdum era só o primeiro movimento de um realinhamento estelar. Uma semana depois (UFC 116, 3 de julho, 2010), o combate Lesnar vs Carwin confirmaria a mudança no trono do clã Heavyweight.

Carwin não é um Brett Rogers. É verdade que vimos muito pouco dele em doze lutas, mas o pouco que ele mostrou foi suficiente pra nocautear os doze adversários contra quem lutou, incluindo aí Frank Mir e Gabriel Gonzaga. O cara não é qualquer um. O primeiro round mostrou isso: ele botou Brock de costas no chão, coisa que não pensava possível. Pena ele ser é um cara grandão, que precisa de muito oxigênio pra viver – e que nunca lutou mais de cinco minutos na vida. De qualquer forma, o primeiro round foi espetacular e valorizou a ambos os lutadores: Carwin no mercado, Brock na vitória.

Que vitória de Brock Lesnar! O sacode que ele sofreu no primeiro round não foi qualquer sacode. Foi bruto. Mesmo. Mas ele soube se segurar, e frustrar Carwin. Digo até o exato momento em que você poderá ver a frustração começar a aparecer no rosto de Carwin: o cronômetro do UFC marcava três minutos e nove segundos. Confira o vídeo da luta.

Katagatame. Quem imaginaria que Brock Lesnar venceria por finalização? Antes de aplicar o estrangulamento, eu já imaginava que ele partisse para montada pra brutalizar o exausto Carwin até o árbitro interromper a luta e declarar o nocaute, ou nocaute técnico. Mas ele foi pra finalização. Uma mudança de jogo que, além de inteligente, mostra como evoluiu. Com apenas quatro lutas no currículo, Brock Lesnar se tornou o campeão peso pesado da maior organização de MMA do planeta. Na sexta luta profissional, venceu como um autêntico lutador de artes marciais mistas um adversário invicto que nocauteou todos seus oponentes.

O que é mais impressionante é que é apenas o começo para Brock. Ele ainda está em aprendizado. Imagine como será quando ele estiver com a trocação mais afiada? Ninguém segura este homem.

Longa vida ao Rei.

Nenhum comentário: